|
Fóruns como a Unctad devem aprofundar debate sobre desequilíbrios mundiais.
Poucos dias antes do início, em São Paulo, da 11ª Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), mais focada nos países emergentes, foi divulgado, na Europa, relatório da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os mais industrializados, indicando que seus produtores agrícolas receberam ajuda de 229,473 bilhões de euros (R$ 900 bilhões) em 2003, responsáveis por 32% de seu faturamento (contra 31% em 2002). Ou seja, ao contrário do propugnado nos fóruns internacionais, os subsídios crescem e se mantêm numerosas barreiras protecionistas, dificultando a inserção das nações em desenvolvimento nos benefícios da globalização. É preciso estar atento a contrapontos como esse, em particular os setores que têm buscado ampliar exportações. Um exemplo: no último exercício, pela primeira vez em 10 anos, a indústria gráfica brasileira teve superávit em sua balança comercial (US$ 73,7 milhões), contra déficit de US$ 21,14 milhões em 2002. Além disso, as vendas externas significaram crescimento extra de 2,58% no faturamento total do setor. O sucesso nessa meta - resultante de investimentos, organização de consórcios de empresas, participação em feiras e embate diário nos mercados internacionais - não significa que as barreiras estejam dissipadas e que os produtos dos emergentes sejam sempre bem-vindos no primeiro mundo. Por isso, há regra válida para todos os que querem e precisam exportar: é preciso ir à luta, com muito empenho e capacidade de superação dos obstáculos persistentes. Em paralelo ao esforço de cada empresa e/ou setor, por meio das entidades de classe, são fundamentais duas outras vertentes de ação. A primeira, por parte dos países emergentes - e seus governos -, que não podem apenas ficar reclamando das disparidades e do protecionismo. Precisam solucionar seus próprios gargalos e buscar o crescimento econômico sustentado. A segunda é o aprofundamento do debate sobre globalização e desenvolvimento. Números como os da OCDE demonstram haver um longo caminho a ser percorrido na direção do entendimento e condições mais equânimes no comércio mundial. Ponto de equilíbrio nessa complexa equação foi o pronunciamento em São Paulo, por ocasião da 11ª Unctad, do secretário-geral da ONU, Kofi Annan. Ele reiterou que os países emergentes são responsáveis por seu próprio desenvolvimento, mas ressaltou a dificuldade de acesso aos mercados das nações desenvolvidas e a permanência dos desequilíbrios e injustiças. Assim, continua lícito questionar o regime do comércio global. A receita de Annan é clara. Para transformá-la em solução é preciso que cada um cumpra sua parte na missão de inverter a curva ascendente da pobreza: às nações emergentes, a tarefa de assumir seu destino; aos organismos internacionais, o dever de recuperar a capacidade de mediação e fazer valer os acordos e tratados entre os povos; aos países ricos, a consciência de que não estão sozinhos na Terra. Nota do Editor: Mário César de Camargo, empresário gráfico, administrador de empresas e bacharel em Direito, é presidente nacional da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf).
|