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Filas quilométricas em direção a qualquer empresa que ofereça vagas de trabalho, não importa o salário em vista, infelizmente, se multiplicam nas grandes cidades brasileiras. É um drama pessoal e familiar, porque, sem emprego, perde-se a dignidade, a auto-estima, e a possibilidade de se construir algo na vida. Apesar das considerações sobre empregabilidade, ócio criativo e outras tentativas de se criar novos parâmetros de prestação de serviços, ainda dependemos do trabalho assalariado, em grande parte, para que a sociedade se organize e progrida. É necessário, portanto, procurar novas formas de oferecer, aos cidadãos, o exercício de suas competências, de seus conhecimentos e, dessa maneira, a plenitude de suas existências. Mas, por que falar nisso no Dia Mundial do Cooperativismo? Porque o cooperativismo tem muito a oferecer na busca de soluções para o desemprego. E os meios de que se necessita para que as cooperativas prosperem dependem mais do bom-senso do que de recursos extraordinários. Praticamente sem nenhum apoio oficial, o cooperativismo responde por 6% do Produto Interno Bruto do Brasil, e por exportações da ordem de US$ 1 bilhão/ano. Estima-se que 182 mil empregos sejam gerados diretamente, hoje, nos diversos ramos de atividade em que há cooperativas, como agropecuária, consumo, crédito, habitação, e saúde, entre outros. Isso sem contar os próprios cooperados, profissionais que obtêm, no sistema cooperativista, um status de proprietários do negócio, sem a exigência maciça de capital que ocorre em outras formas de organização econômica. Por trás deste sucesso, está o fato de o cooperativismo reunir os melhores anseios de nossa sociedade: democracia, livre-iniciativa, livre-adesão, gestão participativa, autonomia e independência. E a solidariedade social, com foco no ser humano, na igualdade de oportunidades, na repartição de resultados do trabalho efetivo. Valores que gostaríamos de perceber como orientação permanente dos governos, empresas e demais organizações sociais. Para gerar empregos, renda, realização pessoal e benefícios para toda a sociedade brasileira, é necessário que esse sistema - criado há 161 anos, na Inglaterra, por tecelões - receba um olhar mais atento de parte de governantes, legisladores, empresários e do sistema financeiro. Precisamos de um tratamento tributário adequado, que respeite nossas especificidades. Ao contrário, somos alvo, por exemplo, de bitributação. Em 2003, frustramo-nos com o comportamento do Governo Federal em relação às cooperativas de trabalho e de saúde, embora o apoio a essas organizações tenha sido mote de campanha eleitoral do presidente Lula. A fidelidade aos princípios cooperativistas e a inexistência do objetivo lucrativo fez e faz com que lutemos para merecer o tratamento diferenciado que a própria Constituição garante às sociedades cooperativas, especialmente no que diz respeito aos aspectos tributários. Por isso, lutamos pela não-incidência de ISS sobre os chamados atos cooperativos. Equação simples Como o objetivo primordial do cooperativismo não é o lucro, embora respeite a iniciativa privada, é bem mais barato e rápido o retorno de cada real investido no sistema. A equação é muito simples: o dinheiro que remunera o investimento é dividido entre os cooperados, criando uma classe média de profissionais valorizados, que podem se dedicar às suas atividades com mais ânimo, porque sentem que o retorno é mais justo. Com tratamento tributário e fiscal correto, e crédito acessível e barato, restaria considerar o sistema cooperativo nos programas de incentivo ao crescimento econômico. Pois, hoje, as cooperativas geram, mundialmente, mais de 100 milhões de empregos. E podem contribuir para reduzir o imenso déficit social brasileiro, começando por oferecer emprego e dignidade a mais brasileiros. Nota do Editor: Celso Corrêa de Barros é médico pediatra, é presidente da Unimed do Brasil.
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