|
A primeira empresa brasileira de informática - Cobra Tecnologia - está completando 30 anos neste domingo, dia 18 de julho. Responsável pelo lançamento dos primeiros computadores e softwares desenvolvidos no País, a Cobra foi utilizada pelo governo brasileiro como instrumento estratégico para o surgimento de uma cultura de tecnologia da informação no País e se constituiu num dos principais pilares para a informatização do Estado ao longo dos anos 70. Foi a partir da Cobra, em parceria com as universidades brasileiras, que começaram a aflorar no Brasil as primeiras empresas de hardware e desenvolvimento de aplicação. Sua criação, em 1974, foi decidida a partir de pressões de setores da Marinha, que não queriam entregar a operação de seus sistemas estratégicos para empresas estrangeiras. Aliada a representantes do mundo acadêmico-científico, a alta cúpula da Marinha conseguiu que o Governo de Ernesto Geisel financiasse o surgimento da Cobra, em associação com bancos nacionais e com participação minoritária de desenvolvedores internacionais de tecnologia. De acordo com Graciano Santos Neto, presidente da Cobra Tecnologia, além do fomento à cultura tecnológica, a Cobra foi fundamental para a criação de uma logística interna de pólos industriais para a produção de partes e peças; e também para o surgimento de uma estrutura de canais que seria usada, mais tarde, como base para fixação das grandes empresas globais hoje atuantes no País. O primeiro computador brasileiro A partir de bem articuladas parcerias internacionais, primeiro com a empresa inglesa Ferranti e, em seguida, com a norte-americana Sycor, já em 1974 a Cobra garantiu às universidades o acesso, antes totalmente vedado, a tecnologias de projeto, programação e montagem de minicomputadores (máquinas robustas, pouco menores que um mainframe). Com o apoio da comunidade acadêmica e de suas próprias equipes, já em 1976 a empresa lançava o primeiro mini-comutador nacional - o Cobra 700, um equipamento totalmente compatível com o mundialmente disseminado modelo Argus 700, da Ferranti, com a diferença de que, agora, esta tecnologia estava domesticada. Passados uns poucos meses, surgiam o Cobra 400, e o Cobra 400-II, ambos com tecnologia absorvida da norte-americana Sycor e já entre os primeiros do mundo com o processador Intel 8080. Com esta linha de minicomputadores de tecnologia nacionalizada, as universidades brasileiras - bem como a iniciativa privada - passavam a perseguir aplicações e customizações adequadas às grandes empresas públicas e - principalmente - aos bancos. Estava lançada, em paralelo, uma avassaladora corrida pela automação bancária, um movimento que também se utilizou do know-how criado pela Cobra para a implantação dos sistemas de retaguarda e do grande parque de sistemas de auto-serviços que iriam proliferar ao longo dos anos 80. Em 1977, enquanto a maior parte dos bancos passava a se servir de equipamentos Cobra, o próprio Governo Federal já processava 4 milhões de declarações de renda em computadores da empresa. Vencido o período inicial - o de absorção de tecnologia - seis anos após a sua fundação, a Cobra apresentava ao País o Cobra 530 - primeiro minicomputador integralmente desenvolvido com tecnologia brasileira. Equipamento de última geração, o Cobra 530 atingia a máxima velocidade de processamento em sua categoria à época do lançamento. Vieram, logo em seguida os primeiros micros PC, lançados pela Cobra no Brasil, ao mesmo tempo em que este novo padrão começava a ganhar os maiores mercados mundiais. Com eles, a Cobra iria liderar um novo processo de competição e qualificação da tecnologia brasileira. Este movimento foi decisivo no surgimento de uma centena de novos fabricantes, integradores de sistemas, revendedores, software houses de todos os portes, consultorias, assistências técnicas e toda a sorte de empresas serviços. O Brasil ao lado do Japão e dos EUA Com o crescimento da Cobra, em 1986, o Brasil já se colocava na sexta posição mundial como fabricante e desenvolvedor de sistemas de informática e um dos raros países, ao lado de EUA e Japão, a atender um patamar superior a 80% de sua demanda interna com produtos próprios. Ligada por natureza aos setores estratégicos da economia, a Cobra resolveu abrir mão de concorrer no mercado de micros PC e colocou em segundo plano a produção física de máquinas de pequeno porte. Passou então a dirigir seu foco para a integração de sistemas complexos e à prestação de serviços para os bancos e órgãos do Governo. Após o fim da reserva de mercado de informática, em 1991, a Cobra intensificou sua atuação na área de serviços para resistir à concorrência com os gigantes e passou a administrar grandes dificuldades de caixa. Quatro anos após o fim da Reserva, o Banco do Brasil absorveu o controle acionário da empresa, com 99,3% das ações, mas mantinha sua operação em níveis menores que os do período inicial. A Cobra se torna "Empresa Global" O momento mais crítico da Cobra ocorreu entre 2001 e 2002 quando o Governo Fernando Henrique Cardoso realizou três sucessivas tentativas de privatizá-la, sem êxito. A partir de 2003, a atual diretoria da Cobra, presidida por Graciano Santos Neto, propôs ao Banco do Brasil um projeto de revitalização que incluía até a adoção pela Cobra da própria logomarca do Banco. Neste curto período de nova gestão, a Cobra saltou de uma receita de R$ 411 milhões para cerca de R$ 700 milhões no ano passado, devendo encerrar este ano na casa dos R$ 1,4 bilhão. De acordo com Santos Neto, uma parte crucial do projeto de recuperação da Cobra, que já se iniciou este ano, consiste em transformar a empresa de em companhia de atuação global e alavancadora de oportunidades internacionais para empresas brasileiras de TI. Há pouco mais de uma semana, a Cobra assinou, em Portugal, um acordo de cooperação que cria a Cobra Europa (CEU). Em uma grande área industrial cedida pelo Governo Português, a Cobra Tecnologia inicia, ainda este ano, a instalação de um pólo de tecnologia voltado para a atuação de empresas brasileiras de software e hardware interessadas nos mercados europeu e de países africanos sob influência portuguesa. Com investimentos previstos de 25 milhões de Euros até 2007, o "Projeto Cluster", como é chamado o novo pólo de tecnologia liderado pela Cobra recebe aportes de capital da API, Agência Portuguesa de Investimentos, e deve gerar receitas da ordem de 100 milhões de Euros anuais, num prazo de seis anos. Em paralelo à internacionalização, a Cobra vem investindo fortemente em tecnologia de software livre, visando não só o mercado brasileiro, mas também os demais mercados de língua portuguesa e Inglesa, além da China e da França. Em junho último, a Cobra lançou no mercado o Freedows, uma suíte de sistema operacional e aplicações que substituiu o Windows e o pacote Office, da Microsoft por uma pequena fração do custo destes softwares (cerca de US$ 30 anuais, com garantia de suporte técnico).
|