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Não é mais novidade para ninguém. Hoje em dia, grande parte dos pais tem longas jornadas de trabalho e optam por oferecer a seus filhos várias atividades extra-escolares. Além da escola convencional, as crianças freqüentam escolas de idiomas, de informática, praticam esportes etc. Em quase todas essas atividades, a presença do professor é imprescindível e fundamental para a formação da criança. Em função da convivência, o professor assume um papel cada vez mais importante na vida de seus alunos. Como eles estão presentes no dia-a-dia e durante o crescimento dos aprendizes, são geralmente os primeiros a observar as dificuldades da criança, seu desenvolvimento, sua capacidade de assimilar conteúdos apresentados, sua interação com os colegas e outros aspectos do comportamento infantil. Várias disfunções que acometiam as crianças e antes eram consideradas problemas de comportamento, falta de vontade ou agitação, com os estudos e com a medicina moderna, revelaram-se problemas médicos. Segundo a psicóloga Tania Valéria Penna Oliani, esses distúrbios sempre existiram, mas o maior acesso às informações facilita a identificação dos portadores. "Outras disfunções, como Dislexia, Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Disfunção do Processamento Auditivo, Síndrome de Tourette, Síndrome do X-Frágil, também já haviam sido estudadas, mas o conhecimento sobre esses distúrbios, entretanto, só saiu do circuito médico há pouco tempo", explica a psicóloga. Em alguns ambientes, estas disfunções são mais fáceis de serem identificadas como em escolas de idiomas, por exemplo. O fato de contar com turmas reduzidas, aproxima os alunos dos professores, que, durante o processo de aprendizagem, percebem distúrbios nem sempre perceptíveis aos olhos dos pais e de professores das escolas convencionais. Tania enfatiza que nas escolas convencionais, onde as turmas são grandes e heterogêneas, é provável que se encontre um número maior de alunos com disfunções neurológicas, mas nem sempre os professores podem reconhecê-las. A maioria depende de observação e diagnóstico médicos. Além disso, numa turma maior, nem sempre o professor dispõe de tempo e condições para observar tantos alunos de forma individualizada e específica. A psicóloga esclarece, porém, que os professores podem chegar a identificar alguns sintomas, afinal, "são eles que acompanham o crescimento de seus alunos". "No plano familiar, os pais de filhos únicos, muitas vezes, não têm parâmetros de comparação, o que dificulta a percepção de algumas disfunções mais leves", acrescenta a psicóloga. Por outro lado, Tania reforça que é fundamental que essa primeira observação do professor seja cautelosa e embasada. Posteriormente, um acompanhamento psicológico e/ou neurológico é, quase sempre, a melhor saída. Na PBF - Pink and Blue Freedom, unidade de Santana, a diretora Helena Nogueira, que também leciona na escola de idiomas, começou a observar uma aluna que ficava a maior parte do tempo conversando em sala de aula, tirando a concentração dos outros alunos. "Sempre que perguntava algo relacionado ao conteúdo, recebia respostas abordando outras questões irrelevantes à situação", conta a professora. Além disso, "a dificuldade de concentração por parte da estudante também era muito grande", relembra Helena. Evitando rotular a aluna de "bagunceira", lamentar-se da situação e incentivar o preconceito por parte dos outros estudantes, a professora consultou a psicóloga Tania que identificou na aprendiz alguns sintomas de hiperatividade e déficit de atenção. Helena buscou leituras para certificar-se da situação e decidiu conversar com a mãe da estudante. "Essa é a parte mais difícil, não são todas as mães que reagem com satisfação quando pedagogas as procuram para conversar sobre o comportamento de seus filhos", enfatiza a diretora. Ao chamar a mãe da criança, Helena inicialmente explicou que gostaria de colocá-la em um nível mais avançado, para estimulá-la através do desafio. Posteriormente, a pedagoga indicou uma publicação para a mãe como sugestão de leitura. Trata-se do livro, "Mentes Inquietas", de Ana Beatriz B. Silva, que aborda a questão da hiperatividade. "A mãe reagiu com alegria a minha iniciativa e, inclusive, procurou a psicóloga que me deu a primeira orientação". Para a psicóloga Tania, o professor enfrenta mesmo uma "saia justa" quando precisa contar para os pais algo sobre o comportamento dos alunos, mas essa conversa é "imprescindível". O conselho da profissional: "Os professores devem sempre falar a verdade, com delicadeza, mas sem eufemismos, isto é, falar que o aluno destoou da maioria e que a escola quer orientar e auxiliar na busca de ajuda, por exemplo". A psicóloga também enfatiza que não se deve rotular e confundir qualquer episódio de agitação e desatenção com hiperatividade, ou qualquer outro distúrbio. "A criança precisa apresentar o comportamento inadequado de forma intensiva, em, no mínimo, dois ambientes em que vive, em casa e na escola, por exemplo", enfatiza. Alguns sintomas facilitam a identificação de uma criança hiperativa como: agitação de mãos e pés quando sentado, inquietude na cadeira escolar (não permanecer muito tempo sentado), corridas em demasia, ser muito barulhento para brincar, falar exageradamente, entre outros.
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