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O mutum-de-Alagoas e o pato-mergulhão estão entre as mais ameaçadas da América do Sul. Em alguns anos a situação pode mudar graças ao trabalho de um biólogo da USP em conjunto com várias instituições.
Duas aves da fauna brasileira poderão, dentro de alguns anos, deixar de figurar na lista de animais ameaçados de extinção. O professor Luís Fábio Silveira, do Departamento de Zoologia do Instituto de Biologia (IB), e curador associado da Seção de Aves do Museu de Zoologia da USP, desenvolve, juntamente com diversas instituições, projetos de conservação com o pato-mergulhão (Mergus octosetaceus) e com o mutum-de-Alagoas (Mitu mitu). As espécies estão entre as aves mais ameaçadas da América do Sul. Existem cerca de 200 patos-mergulhões livres na natureza, e nenhum cativo. Se outrora ele poderia ser encontrado no Brasil, Argentina e Paraguai, hoje, exceto raríssimas aparições em terras argentinas, sobrevive somente em áreas brasilerias isoladas, principalmente nas terras altas do Centro-Oeste. Já do mutum restam cerca de 100 exemplares, todos em cativeiros. "Podemos dizer que temos o destino desta espécie em nossas mãos", afirma. A ave era originalmente encontrada apenas em matas de baixada nos estados de Alagoas e Pernambuco, que foram devastadas por iniciativas como o Proálcool, nas décadas de 1970 e 1980. Hoje restam alguns poucos fragmentos de mata que poderiam abrigar novas populações deste Cracidae (a família a qual pertence o mutum). Os exemplares que deram origem à população em cativeiro foram capturados na década de 1980 por um criador de aves do Rio de Janeiro, Pedro Nardelli. Num esforço para preservar a espécie, ele cruzou exemplares do mutum-de-Alagoas com uma outra espécie de mutum, encontrada na Amazônia. O resultado é que entre 50% e 60% dos exemplares não são geneticamente puros, mas a espécie ainda sobrevive. A destruição do habitat foi a principal responsável pelo rápido decréscimo de ambas populações. O pato-mergulhão se alimenta de peixes em rios cristalinos, onde consegue visualizar a presa. A construção de hidrelétricas como Itaipu e a crescente poluição de mananciais e rios restringiu seu habitat a algumas poucas áreas sem ligação entre si. "São populações muito isoladas e muito reduzidas", diz. Futuro Segundo Silveira, até o fim do ano deve ser publicado um plano de ação para a preservação do pato-mergulhão, que inclui desde a recuperação dos habitats a um possível manejo em cativeiro. Este projeto conta com o apoio de diversas instituições, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e algumas ONGs, como a Terra Brasilis e a Wildfowl and Wetlands Trust (WWT), do Reino Unido. Com o mutum o processo será diferente, já que a espécie existe apenas em cativeiro e muitos exemplares são híbridos. "Estamos num trabalho de recuperação e manutenção que visa principalmente a multiplicação da espécie", explica Silveira. Além de aumentar o número de exemplares, os estudos também são orientados para um melhor pareamento das aves, no sentido de proporcionar pureza e diversidade genética à população e evitar assim que surjam doenças de consangüinidade. "Em cerca de 6 ou 7 anos devemos começar a soltar alguns animais na natureza", estima. Os estudos genéticos estão sendo feitos pela equipe da professora Anita Wajntal, do IB, e o projeto conta ainda com parcerias de diversas outras instituições, como o Instituto para a Preservação da Mata Atlântica (IPMA), de Alagoas, a BirdLife International, o Criadouro Científico e Cultural Poços de Caldas e a Crax, em Belo Horizonte.
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