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Especialistas da USP e da Universidade de Iowa, EUA, avaliam a primeira fase do Programa de Prevenção de Fissuras Orais durante encontro no Centrinho, em Bauru, e a eficácia do ácido fólico no período pré-conceptivo.
Pesquisadores do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC) da USP, o Centrinho, no campus de Bauru, e da Universidade de Iowa (EUA) se reuniram esta semana, entre os dias 10 e 11 de agosto, para avaliar a primeira fase do Programa de Prevenção de Fissuras Orais. A pesquisa investiga a eficácia da administração de ácido fólico no período pré-conceptivo na prevenção da recorrência de fissuras orais (lesão de lábio ou de lábio e palato) em filhos de mulheres que pertencem a grupos de risco para essa anomalia. Também estiveram presentes a administradora científica do National Institute of Children and Human Development (NICHD), Lorette Javois, e o gerente de protocolo da ONG Research Triangle Institute, Norman Goco. "De modo geral, ficou decidido que a equipe técnica continuará visitando, bimestralmente, as participantes já incluídas e, paralelamente, serão feitas novas inclusões", conta o professor Antonio Richieri-Costa, geneticista do Centrinho, e responsável pela pesquisa no Brasil. Os pesquisadores também pretendem estreitar contatos com as Secretarias Municipais de Saúde, assistentes sociais e agentes comunitários para mobilizar as potenciais participantes em cada município. "As visitas serão retomadas já na próxima semana", garante o professor. Na fase piloto, que começou em fevereiro deste ano, estão sendo pesquisadas mulheres, em idade reprodutiva, fissuradas ou mães de crianças fissuradas, residentes em Bauru e em 55 municípios vizinhos, num raio de 120 quilômetros. Planejada para ser executada em três anos, a pesquisa pretende suplementar cerca de duas mil mulheres com ingestão diária de um comprimido de ácido fólico, prevendo-se que um percentual significativo delas engravide ao longo do estudo. "A cada dois meses, a equipe do programa visita as participantes para obter informações sobre possíveis atrasos menstruais e gravidez, entregar uma caixa com 70 comprimidos de ácido fólico e coletar uma amostra sangüínea para análise dos níveis da substância no organismo da mulher", conta Richieri-Costa. O ácido fólico é uma vitamina do complexo B encontrada principalmente em vegetais e verduras de folha verde escuro. Vários trabalhos publicados demonstram que a substância diminui a ocorrência e a recorrência de defeitos de tubo neural (estrutura precursora do cérebro e da medula espinhal), como a anencefalia (ausência de cérebro). "Alguns estudos também encontraram evidências de deficiência de ácido fólico em mulheres com carga genética para fissura, mas nenhuma pesquisa demonstrou até hoje que, de fato, esta vitamina é capaz de prevenir essa malformação. É justamente isso o que queremos descobrir", diz Richieri-Costa. Teste duplo-cego Os comprimidos distribuídos para as participantes da pesquisa foram fabricados em duas dosagens: 0,4mg e 4,0mg. As dosagens habitualmente comercializadas nos multivitamínicos são de 2mg e 5mg. "A Organização Mundial da Saúde preconiza a dose mínima de 0,4 mg para o fechamento de tubo neural. Desta forma, já garantimos a dosagem ideal para prevenir esta anomalia", completa o professor, que ainda conta que nenhuma das mulheres saberá qual dosagem está tomando. É o chamado teste duplo-cego. A fase A da pesquisa teve uma adesão de 134 mulheres. Elas tiveram um primeiro encontro com a equipe do programa no mês de fevereiro, ocasião em que receberam a primeira caixa de comprimidos de ácido fólico e realizaram a primeira coleta de sangue para dosagem basal de B11 e B12. Estas mulheres estão sendo visitadas bimestralmente. A quarta visita ocorreu na primeira semana de agosto. "Ao final do estudo, as taxas de recorrência de fissuras serão comparadas entre os grupos de mulheres. Também será identificada a eficácia das duas doses utilizadas no estudo", diz Richieri-Costa. O objetivo final é atingir duas mil mulheres, para conseguir um número significativo de bebês. "Analisando estes nascimentos poderemos ter idéia da eficácia ou não do ácido fólico, comparando as taxas encontradas com as esperadas", explica o geneticista do Centrinho. A expectativa é baseada no índice de prevenção encontrado em estudos britânicos que identificaram uma redução de 4% para 1% de recorrência de erro de fechamento de tubo neural após administração de ácido fólico. No Brasil, a fissura labiopalatina ocorre em um bebê a cada 700 nascidos vivos. Entre as pessoas que são fissuradas ou que já tiveram um filho fissurado o risco, aproximado, de recorrência é de 5%. Financiamento internacional O Programa de Prevenção de Fissuras Orais é resultado de um projeto desenvolvido conjuntamente pelos professores Antonio Richieri-Costa, do Centrinho, e Jeffrey Clark Murray, do Departments of Pediatrics and Biological Sciences da Universidade de Iowa, EUA, e integra a Rede Global de Pesquisa em Saúde Materno-Infantil, criada em 1999 a partir de uma parceria entre a Fundação Melinda e Bill Gates, o National Institutes of Health (NIH) e o National Institute of Children and Human Development (NICHD). O programa conta ainda com a assessoria logística da ONG norte-americana Research Triangle Institute (RTI), que viabilizou o banco de dados e a comunicação em rede entre os pesquisadores.
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