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O diretor-executivo da Organização Não-governamental Transparência Brasil, Cláudio Weber Abramo, um dos organizadores da campanha "Voto Limpo 2004, Diga Não à Corrupção", recomenda aos eleitores: "vote com a cabeça, não com a barriga". Abramo também critica o chamado "faroeste eleitoral" verificado em algumas regiões do país, resultado, segundo ele, de nosso "subdesenvolvimento". Em entrevista ao programa "Revista Brasil", da Rádio Nacional AM Brasília, Abramo também elogiou a iniciativa da Radiobrás de pedir ao Tribunal Superior Eleitoral para que as rádios da empresa veiculassem spots com mensagens alertando para os perigos da corrupção eleitoral. Por decisão do TSE, comunicada à Radiobrás na última quinta-feira, a campanha, elaborada pela Transparência Brasil, não pôde ir ao ar. Abramo comentou a decisão do TSE, que entendeu caber somente à Justiça Eleitoral divulgar informações ao eleitorado. Leia a seguir os principais trechos da entrevista. Rádio Nacional - De que forma o cidadão pode participar dessa campanha que a Transparência Brasil vem desenvolvendo? Abramo - O que ele tem que fazer é discutir o máximo possível com seus amigos, com seus companheiros de trabalho, com seus familiares, os pressupostos que estão em uma eleição, quem são os candidatos, e por que motivo votar no candidato A ou B. Ele deve pensar objetivamente no processo do voto e não se deixar levar pelo marketing, pela venda do candidato como mercadoria, que está se tornando comum. Isso não vale nada, não preste atenção no que publicitários falam a respeito de eleição. Pense por sua cabeça, discuta quais são as características e o histórico dos candidatos junto com as pessoas em que você confia. E vote com a cabeça, não com a barriga. Rádio Nacional - Nós tivemos recentemente um episódio no Rio, em que o presidente do Tribunal Regional Eleitoral queria anular as candidaturas de todos aqueles que vinham pleiteando ser prefeito ou vereador, mas tinham na sua ficha criminal processos a responder... Abramo - Esse caso do Rio de Janeiro é bastante absurdo. O TRE tentou cassar uma candidatura e não conseguiu. Há casos parecidos. Em Londrina, um ex-prefeito foi cassado por corrupção e se apresenta de novo às eleições. Aqui numa cidade de São Paulo, um indivíduo que está na cadeia cumprindo 42 anos de pena por pedofilia candidatou-se, e a Justiça Eleitoral disse que ele pode se candidatar porque não passou ainda em última instância a questão. Realmente, é uma interpretação da lei completamente absurda e de fato não ajuda na edificação de uma imagem do Judiciário. A imagem do Judiciário que surge desse tipo de episódio é a pior possível, de que são coniventes. Rádio Nacional - Pelo noticiário, temos visto que há até mesmo candidatos sendo assassinados, sofrendo atentados. Esse pleito não está muito violento? Abramo - Esse tipo de episódio acontece no Brasil em toda eleição. Uma boa parte do Brasil é muito atrasada. Eu não estou vendo um aumento da violência, mas de toda maneira não há estatística sobre isso. Esse faroeste eleitoral acontece em todas as eleições, em algumas regiões em que as práticas políticas são atrasadíssimas. As oligarquias brigam umas com as outras, e aqueles que se contrapõem a elas usualmente sofrem represálias, são assassinados, É um problema do subdesenvolvimento brasileiro, acontece há muito tempo. Rádio Nacional - Estamos tratando desses assuntos em todos os nossos programas na Radiobrás. Durante todo o pleito, vamos dar informações, serviços, alertar a população para que denuncie abusos, isso faz parte da nossa missão. Abramo - Eu queria observar que a iniciativa da Radiobrás é inédita. Uma empresa pública de radiodifusão que se lança com coragem, com grande determinação, numa atuação durante o processo eleitoral, é muito importante. Eu gostaria de deixar consignada a apreciação da nossa organização quanto à atitude da Radiobrás. Serve de exemplo para outras emissoras de rádio, que deveriam também fazer a mesma coisa, mirar-se no exemplo da Radiobrás, parabéns a vocês. Rádio Nacional - Como o senhor avalia a decisão do TSE em relação à Radiobrás? Abramo - Essa decisão do TSE foi quase surrealista. O TSE não proibiu a Radiobrás de veicular esses spots, recomendou que não veiculasse. Uma recomendação a gente segue ou não segue, conforme o nosso próprio juízo. Então, eu gostaria de sugerir que a Radiobrás levasse em consideração a recomendação do TSE e dissesse, muito bem, vamos agir de acordo com a nossa consciência e vamos botar no ar. Vocês não foram proibidos, recomendou-se que não se veiculasse. Diz lá ao ministro Sepúlveda Pertence (presidente do TSE), muito obrigado, consideramos a notificação do TSE, mas não vamos levá-la em consideração, põe o spot no ar e pronto, vê o que acontece. Duvido que aconteça alguma coisa. Rádio Nacional - Nosso Departamento Jurídico está examinando a questão, mas, se não estamos com os spots, estamos fazendo entrevistas sobre esse problema. Abramo - Com bastante sensatez, vocês estão abordando o problema de votar em candidatos corruptos e da venda de votos. É isso que tem que ser combatido. O problema da compra de votos no Brasil tende a ser maior em certos lugares do que noutros, mas, pequeno ou grande, a compra de votos desvirtua o processo eleitoral e faz com que candidatos que são criminosos sejam eleitos para ocupar funções de representação da cidadania. Isso tem que ser combatido, e a forma de combater é mostrar para as pessoas que o rádio é um veículo ideal para isso, mostrar para as pessoas como é ruim vender votos, o que significa isso. Quem pode confiar num candidato que compra votos, o que se pode esperar de um candidato desses? O que se pode esperar de um candidato que é sempre colocado em associação com atos criminosos, em sistemáticas suspeitas de corrupção em cima desse cara? É melhor não votar nele, é melhor ficar seguro. O papel do rádio é muito importante nesse processo de conscientização da população no sentido de exercer melhor esse direito de cidadania.
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