Entre os problemas que têm afetado Ilhabela nas últimas três décadas, qual o pior? Criminalidade? Saneamento básico? Crescimento desordenado? O aumento da população? Trânsito? Nenhum destes problemas compara-se com um problema ainda mais antigo e sério. Trata-se daquilo que há de comum em todos os problemas e que está na raiz deles: ignorância. Vejamos. O turista, por definição, está dispensado de ter pleno conhecimento do lugar que visita. Não importa para ele se Ilhabela não é exatamente como aparece no cartão-postal, importa apenas que haja sol e que ele possa se divertir — há várias empresas e estabelecimentos dispostos a enfeitiçar o turista. Se as praias e as cachoeiras estiverem sujas (estão), piscinas e cervejas geladas garantirão o frescor dos feriados e finais de semana. Nestas condições o turista ignorará o fato de estar em Ilhabela. Alegria e êxtase à mesma proporção do volume do som e do teor de tóxicos no sangue e na alma do sujeito. Os verbos do turista são festejar e, como diz a moçada, causar (outrora conhecido como “gazetear”). O veranista não é essencialmente diferente do turista, ele apenas costuma ser mais discreto. Em vez de mergulhar em bebedeiras e sonzeiras, prefere isolar-se em qualquer espaço intra-muros, onde também encontra o frescor de uma piscina e do freezer mais próximo. Ele também ignora o fato de estar em Ilhabela. Ele se desloca da urbanidade da cidade grande, passa algumas horas na urbanidade do ar-condicionado de seu carro e sai de lá para a urbanidade do habitat seguro e refrigerado de sua segunda casa, donde só sai para a urbanidade segura e refrigerada de algum bar ou restaurante de nível ou aparência “internacional”. Para o veranista, a cidade de Ilhabela — incluídos aí seus meandros mais decadentes e fedorentos — é um cisco no olho, uma mancha nojentinha e desagradável que, apesar de tudo, não prejudica a vista para o mar e por enquanto não reduz o valor de seu imóvel, estrategicamente encravado nas encostas verdes e preservadas do arquipélago. Seus verbos são relaxar e desfrutar (i.e. “arrancar os frutos”), com uma das mãos balouçando e tocando levemente a água clorada. Ao contrário dos dois anteriores, o migrante conhece Ilhabela. Ele veio para cá atraído por oportunidades de trabalho ou pela perspectiva de montar aqui o seu negócio. Estas coisas exigem conhecimento, mas é o mesmo conhecimento dos cadernos de economia: números, prazos, cifras, valores. Ele ignora o que faz estas coisas se moverem. Ele se preocupa mais com a visibilidade da placa de seu estabelecimento do que com o destino do esgoto que produz. Ele se preocupa mais com o prazo para entregar a obra do que com o número de árvores eliminadas para lhe dar lugar. Ele se preocupa mais com a prestação da sua moto do que com os problemas que o trânsito causa para a cidade. Não importa se é migrante rico ou se é migrante pobre; seus verbos são especular e faturar. O morador antigo, mesmo que tenha começado como migrante, é o que mais conhece Ilhabela. Ele sabe donde vêm os nomes das praias e dos recantos de Ilhabela, conhece personagens antigos e folclóricos da cidade (alguns até já se foram), traz na memória o sabor dos dias de absoluta tranqüilidade, época que não era das mais fáceis, mas em que a simples contemplação das qualidades do arquipélago bastava para manter sua dignidade social e ambiental. O morador antigo conhece Ilhabela porque manteve o pé firme no chão desde seus primeiros dias por aqui. Contudo, hoje esse conhecimento simplesmente se desmancha diante de seus olhos, incapaz de fazer frente à ignorância instituída que preza mais o oba-oba, as idéias, as imagens e os vícios do que o lugar que ora se oferece a todos, com a mesma generosidade simples com que os caiçaras mantinham suas casas de janelas e portas abertas. Os verbos do morador são lamentar e tratar — lamentar as transformações cada vez mais inevitáveis e irreversíveis e tratar as feridas cada vez mais profundas causadas por aqueles que não conhecem Ilhabela, não querem conhecer e que têm raiva de quem conhece.
Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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