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14/11/2004 - 18h06
A República das Elites
 
 
Ensaio sobre a ideologia das Elites e do Intelectualismo.
 
Divulgação 
  Capa do livro A República das Elites - Ensaio sobre a ideologia das Elites e do Intelectualismo, de Agassiz Almeida.

O escritor, professor e ex-deputado federal Agassiz Almeida monta em A República das Elites um poderoso painel onde, ao percorrer os mais de cinco séculos de história do Brasil, examina detalhadamente a controversa relação mantida entre as elites e os intelectuais. Segundo ele, as expressões artísticas e culturais presentes em nosso país sempre trabalharam - com raras exceções - a favor dos endinheirados.

Para o autor, as elites negam a relevância e o talento do povo brasileiro. Ao repetir e disseminar bordões do tipo "o brasileiro é preguiçoso" e "só a polícia pode acabar com a marginalidade", os formadores de opinião fixaram uma idéia que não poderia estar mais distante dos fatos. A República das Elites mostra que os corruptos são os próprios poderosos, que compram dispendiosas mansões no exterior com o dinheiro roubado dos cofres públicos de um país em que uma enorme fatia da população é composta por miseráveis. Tal ideologia elitista remonta aos tempos da colonização portuguesa, quando a aristocracia assumiu o monopólio de extração do pau-brasil. No século XVI, grande parte das terras brasileiras já estava nas mãos de alguns poucos senhores de engenhos e barões do café que adoravam se vestir com tecidos importados.

Fundamentando-se em pensadores como Marx e Marcuse, Agassiz explica que essa ideologia é cultivada por políticos e artistas - justamente aqueles que deveriam lutar contra ela. Na sua visão, a participação da intelectualidade nos movimentos revolucionários ocorridos no Brasil foi de pouquíssima relevância. O autor ressalta que, ao contrário do que aconteceu em outros países, a literatura brasileira nunca manifestou qualquer repúdio aos donos de terra escravocratas e aos militares torturadores. Pelo contrário: em obras de autores renomados, entre eles Mário de Andrade e Monteiro Lobato, foi o povo que se viu ridicularizado nas figuras de "heróis sem nenhum caráter" (Macunaíma) e "piolhos-da-terra" (Jeca Tatu). Em suas próprias palavras, Agassiz Almeida enxerga a arte como o "ponto de partida para encontrar o homem no seu calejado ramerrão, e não como embalo para deleite e sensibilidade de uma pequena minoria".

Agassiz (que combateu as ditaduras de Oliveira Salazar, em Portugal, e Augusto Pinochet, no Chile) lembra ainda que, no Brasil, avenidas e monumentos são sempre batizados em homenagem a monarcas e generais, enquanto os heróis que realmente batalharam pelo país - em ocasiões como a expulsão dos holandeses, a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana e a Coluna Prestes - foram praticamente excluídos da história oficial. Os nomes que hoje ganham destaque nos livros didáticos como grandes figuras do nosso passado são aqueles que sempre exploraram o povo e fizeram com que o Brasil se tornasse a nação com maior desigualdade social em todo o globo.

Sem soar academicista em momento algum, Agassiz Almeida faz de A República das Elites uma obra polêmica e esclarecedora. Como o teólogo José Comblin afirma no prefácio, o livro é "um panfleto revolucionário que passou pela exuberância nordestina: excessos de calor, excessos de seca, excessos de enchentes, um sol que tudo queima e a teimosia dos habitantes em desafiar uma natureza que os submete a uma provação constante".

Entrevista Agassiz Almeida

"A vida é uma constante absorção de aprendizado que o dia-a-dia nos vai impondo. Todos os livros têm os seus momentos e vêem o homem nos turbilhões dos fatos. Difícil é flagrá-los nos acontecimentos. Eles formam o grande acervo da humanidade. Uns mais, outros menos."

Ex-preso dos anos de chumbo do regime militar, constituinte de 1988, deputado federal, professor e escritor, Agassiz Almeida traz, em A República das Elites, um retrato sem retoques daqueles que desde sempre traçaram os caminhos do Brasil. Diz ele: "Na construção dos pensamentos, muitas vezes, aprendemos mais ouvindo um simples homem do povo do que com a leitura de grandes tratados. Na alma do povo borbulham séculos; difícil perscrutá-los."

Como surgiu a idéia de escrever A República das Elites?

Quando despertei para a concepção de trazer a lume a construção de uma obra que definisse o papel das elites do país desde a sua origem lusitana, interroguei-me: Como um povo tão forte, tão enérgico, tão determinado que, no processo de colonização, navegou por longas travessias oceânicas, e aqui nos trópicos pôs os pés há 500 anos, enfrentando uma mata exuberante, animais selvagens, índios bravios, erigiu este país? Que desafiante obra colonizadora! Por outro lado, uma chusma de fidalgos, viciada nos salamaleques da Corte, percebendo rendas mensais, numa ociosidade satisfeita, auferia altos privilégios da Coroa. Analisando esses cinco séculos da nossa História, hoje deparamos com a repetição desse mesmo egoísmo, um caudilhismo financeiro, rapace, avassalador e asfixiador do país. Desses dados e da junção desses elementos nasceu A República das Elites, condensada em 550 páginas, numa visão desse quadro sóciopolítico aberrante. Para estudar esse processo, muito pesquisei. Estive na Torre do Tombo em Lisboa. O lusitano (é preciso que se ressalte), num momento fugaz e inolvidável da História, conduziu a humanidade.

O senhor afirma que quis fugir do academicismo e do eruditismo. No prefácio, o padre José Comblin diz que a sua obra poderia ser descrita como um "manifesto". O senhor concorda? De que forma define o seu livro?

Nos últimos tempos defrontamo-nos - isto é péssimo para a formação das novas gerações - com uma arte caolha, de teor vago, sentimentalista, carregada de falácia, mistério e obscuridade, inacessível às massas e imprecisa - e, o pior, de costas à realidade. O país acha-se mergulhado em graves e perplexos desafios ante a violência, a criminalidade e as injustiças sociais. Saltam-nos à vista esses fatos. O nosso universo literário, como se situa? De um mero editorialista do cotidiano ao grande produtor literário, a realidade brasileira faz-se desconhecida. É a isto que perfilo como academicismo e eruditismo. Nas redomas literárias o intelectualismo esconde-se dos desafiantes e atordoantes fatos da vida. Essa obra procura se contrapor a essa arte que pulula por aí em centenas de livros.

O mestre padre José Comblin conceituou a obra A República das Elites como um "manifesto". De fato, toda causa humana aberta ao mundo, e na qual se movem aspirações, sonhos, ideais e lutas, prefigura-se como manifesto. Toda a obra que aponta um novo horizonte, que desperta novas consciências, que rebenta com o status quo vetusto e negativo, é um "manifesto" aos novos rumos do pensamento.

Na sua opinião, quais seriam os potenciais leitores de A República das Elites: o povo ou as próprias elites?

Os leitores de um livro compõem um arco muito variado e amplo, que vai desde o intelectual em busca de uma interrogação para as suas elucubrações até o homem indignado diante de determinados acontecimentos. Essa obra abrange do ser humano injustiçado em face desse esse cenário atordoante, conduzido por uma elite encastelada no Poder, a um trabalhador sobre o qual pesa o próprio caminhar do país. Este livro mergulha neste universo e expressa essa indignação, razão pela qual ele atinge a todo e qualquer leitor.

Que papel a sua longa atuação como deputado teve em sua obra? Esse fato ajudou com que o senhor tivesse uma visão privilegiada dessas tais "elites"?

A vida pública nos sacode constantemente em contradições e desafios. É a arte de compreender o homem e definir onde se encontram o hipócrita, o embusteiro e o estadista. Perfilá-los é a grande arte da sabedoria política. A vida pública ministrou-me grandes ensinamentos. Vi, quando preso durante o Regime Militar, as truculências, as violências, as torturas, a mão insana e impune que tudo arrebentava sabendo de antemão que tinha, a aplaudi-la, a glorificação dos seus superiores; ouvi os gritos desesperados dos que sem fé na justiça se recolheram na redoma da dor, como um Frei Tito, um Frei Beto; um Rubens Paiva, um Stuart Angel; vi a execução de três jovens desarmados nos porões do Doi-Codi, do II Exército, em São Paulo. Estive, como deputado federal em 1988, na Assembléia Nacional Constituinte e vi o Orçamento da União esquartejado em quase 90% em favor dos grandes banqueiros e de poderosas empreiteiras, e o restante dos recursos dividido para os pequenos investimentos. O núcleo do livro A República das Elites centrou-se nesse quadro inexoravelmente injusto; tudo isto com a conivência da grande mídia.

É dito no livro que grande parte da literatura produzida no Brasil é "doentia". Que nomes da cena artística contemporânea o senhor destacaria como exceções a essa regra? Por quê?

Hoje em dia, o país é abalado por uma violência inusitada e desafiadora, onde milhões de seres humanos são arrastados ao desemprego e à ignorância, vítimas de um sistema econômico brutalmente desumano em que alguns privilegiados tudo auferem. E os nossos escritores, poetas e ensaístas, o que falam? Silenciam. É por aí que a arte se torna doentia; falta-lhe o encontro com o sadio, o novo, o renovador e o desafiador.

A arte refinada das elites repousa na escravidão dos povos; é um luxo; fruto de uma injustiça que despoja o povo de recursos para compreender e ter acesso ao saber. Faz-se uma arte para "ungidos". A literatura autêntica aponta as injustiças, abraça o verdadeiro ideal de contemporaneidade. O país afoga-se em graves crises, enquanto o "intelectualismo" forja uma arte galhofando com o homem do povo; a verdadeira arte fomenta a união e a fraternidade entre os homens.

A mofa, a galhofa, o ridículo, o grotesco são próprios dos saltimbancos circenses. No Brasil, na cena literária atual, temos um Chico Buarque de Holanda, um Francisco Oliveira, um Wilson Martins, um Alberto Costa e Silva, um Alfredo Bosi, um Luís Fernando Veríssimo, um Vamireh Chacon e uma nova geração que constantemente se interroga com indignação. Façamos uma nova literatura, não com o pobre e desesperado do Macunaíma, vindo do Amazonas - mas apontando o banqueiro acolitado por milhões, ditando rumos lá na Quinta Avenida em Nova York para os povos subdesenvolvidos, deixando a sua consciência nas Bolsas de Valores do mundo. Só assim construiremos uma literatura autenticamente brasileira.

Sobre o autor

Agassiz Almeida, escritor e professor, nasceu em Campina Grande (PB) e ingressou na vida pública em 1958. Elegeu-se deputado estadual e participou da fundação de ligas camponesas e de faculdades. Quando da instauração do Regime Militar, em 1964, teve o seu mandato cassado. Como um dos fundadores do MDB, voltou à Câmara Federal em 1979 e, na década seguinte, participou da Assembléia Nacional Constituinte e recebeu do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) nota de destaque por sua atuação política. No começo dos anos 90, deixou a vida pública e foi se dedicar a estudos e pesquisas. Escreveu os livros A nação e o impeachment, O país dos banqueiros e 500 anos do povo brasileiro.

Livro: A República das Elites
Autor: Agassiz Almeida
Preço: R$ 50,00
546 páginas
16 x 23 cm

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