Iniciado em 1997, programa de informatização nas escolas prevê, para 2005, a instalação de salas de multimeios em todas as instituições de ensino do Estado. Projeto já beneficiou 3,5 mil escolas com 32,4 mil computadores.
| | | Fernandes Dias |  | | | | Sala de Informática da EE Afiz Gebara, no Capão Redondo. |
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Nenhum estudante paulista ficará fora do mundo digital. Para concretizar essa idéia, o governo de São Paulo vem investindo desde 1997 no Projeto Universalização da Informática nas Escolas, desenvolvido pela Secretaria da Educação. No dia 3, houve a liberação de novo suporte de R$ 38 milhões. Com esse recurso, espera-se cumprir a meta de instalar em cada uma das 5.408 escolas da rede estadual de ensino uma sala ambiente de multimeios, destinada ao uso pedagógico dos alunos. As aplicações serão para a compra e instalação de equipamentos de informática, mobiliários e softwares. A previsão é de que até o primeiro semestre de 2005 as salas estejam equipadas e com os ambientes de informática funcionando. "Estamos consolidando a universalização da informática em toda a nossa rede no Estado", afirmou o governador Geraldo Alckmin ao conceder a verba. O projeto deu prioridade de atendimento aos alunos de 5ª a 8ª séries do ensino médio. "Começamos a liberar computadores para os adolescentes porque tinham mais urgência em aprender informática do que os estudantes do ensino fundamental. Logo estariam no mercado de trabalho e esse conhecimento é requisito básico na disputa de uma vaga. Agora atenderemos os jovens do ensino fundamental (de 1ª a 4ª séries) de todas as regiões do Estado", explica Tirone Lanix, diretor-presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE). Programa instalou 32,4 mil computadores em 3,5 mil escolas Desde sua criação em 1997, o programa informatização nas escolas já instalou 32.405 computadores em 3.596 escolas estaduais, das quais 1.665 com recursos de banda larga. Usou recursos de R$ 243 milhões na área pedagógica, de acordo com a FDE. A meta é colocar 48,7 mil micros nas 5.405 escolas até o segundo semestre de 2005. O diretor-presidente da Fundação, Tirone Lanix, explica que o programa de informatização se baseia no seguinte tripé: criação de infra-estrutura nas escolas, inclusão digital do professor e do aluno-monitor e inclusão digital da comunidade vinculada ao Programa Escola da Família, elaborado em agosto do ano passado. O Escola da Família instituiu a abertura das instituições de ensino nos fins de semana, para a sociedade usar o espaço estudantil como centro de convivência, com atividades voltadas às áreas esportiva, cultural, de saúde e de qualificação para o trabalho. Desde sua criação houve 192 mil participações da comunidade em curso de informática básica. Uso intensivo dos computadores - Selecionada para receber dez computadores da nova leva do projeto de informatização, a EE Afiz Gebara - no Capão Redondo, zona sul da cidade - tem 11 equipamentos conectados à Internet, usados intensivamente pelos alunos durante as aulas e pelos pais e a comunidade nos fins de semana. A diretora da escola, Maria Aparecida Correia Rocha, explica que há espaço para as novas máquinas e a procura é intensa. "Quando as crianças que precisam de reforço contam para os colegas o que aprendem e o que fazem na sala de informática, todos querem ser incluídos na turma. Mas é difícil atender tanta gente. A prioridade é para aqueles com dificuldades no aprendizado. Dentro da nossa capacidade, nos fins de semana agendamos aulas de informática básica para os pais. O resultado tem sido positivo e gostaríamos que todos os alunos pudessem ter essa oportunidade." Ar-condicionado e crachá - Considerado o mascote da sala de informática, Kelvin Cavalcanti, 11 anos, é assíduo freqüentador do espaço que tem ar-condicionado. É o primeiro a chegar, por volta das 7 horas, e só retorna para a casa às 18 horas. Depois de assistir às aulas, passa todo o tempo disponível mexendo no computador ou estudando na biblioteca. "Não tenho em casa, mas no serviço do meu pai, que trabalha em Banco, aprendi a ligar e a desligar o equipamento. Agora sei desenhar no Paint, fazer conta, procurar o significado das palavras no dicionário, pesquisar na Internet e brincar com jogos. Mas ainda preciso muito do auxílio da professora." Nem sempre foi assim. Antes o menino gostava de ficar na rua. Como sua mãe falecera no parto e o pai trabalha fora de casa, passava o dia todo sozinho. "Até que seu pai descobriu que ele faltava às aulas e estava se envolvendo com pessoas que cometiam delitos", relata a diretora. Em desespero, pediu ajuda à escola. Desde então, o menino vive em regime de internato. "Aqui é legal porque aprendo com o computador e não tiro mais notas baixas. Tenho até crachá com meu nome. Veja!" De alguma forma os escritos na parede da entrada da escola - "Abram seus corações e olhem os lírios do campo que, todos nós, professores, alunos e funcionários, tentamos cultivar especialmente para vocês. Que se abra o pano e que a magia comece" - surtiram efeito na vida de Kelvin. Trilhas e Letras e Números em Ação - A Afiz Gebara foi uma das primeiras a adotar os dois novos programas Trilhas de Letras e Números em Ação, utilizados por mais de 57 mil alunos, professores e estudantes das 5ª e 6ªs séries do ensino fundamental da rede estadual paulista. O primeiro destina-se aos que têm dificuldades com a Língua Portuguesa e é específico para as questões de leitura e produção de texto. O outro é usado por crianças que têm dificuldade em assimilar Matemática. "Os softwares funcionam como facilitadores na aprendizagem. E não é só. Até o comportamento da turma em sala de aula está melhorando com a informática. Trabalhamos bastante a auto-estima e ensinamos que ninguém é fracassado porque tira nota vermelha; que errar é normal e que todos são importantes e podem aprender", disse Luana Lodi, professora de Matemática. Novas experiências - Jéssica Alencar, 11 anos, gosta de "desabafar" com o computador nas aulas de Trilhas de Letras. A menina escreveu que seu pai fica bravo porque ela chega da escola e senta no sofá. "Ele fica pedindo para eu lavar a louça, desligar a TV... essas coisas." Jéssica também assiste às aulas do programa Números em Ação. "Eu era péssima em Matemática, mas depois que aprendi a calcular, estou tirando nota 6 e já consegui até um 7." Sua colega, Deborah Silva, também participa das aulas dos dois programas. Diz que passou a fazer cálculos "de cabeça" após as aulas na sala de informática. "Ficou mais fácil pensar com a ajuda do computador. É bem mais prático e melhor do que usar papel. Meu raciocínio melhorou e minhas notas também. Ajuda a fazer textos e não preciso mais ficar escrevendo e rabiscando para corrigir." Giz e lousa - Embora a idéia seja utilizar os programas Trilhas de Letras e Números em Ação em aulas de recuperação e com os alunos necessitados de reforço escolar, a professora diz que mesmo os que recebem notas boas querem ir para a sala de informática. "Eles têm muito interesse e pouca oportunidade de acesso. Infelizmente só podemos atender, de forma sistemática, os que precisam de suplemento para acompanhar a aula." Outra escola estadual que tem unido o giz e a lousa à tela do computador é a Luiza Mendes, no Parque São Lucas - zona leste da capital. Diferentemente do aluno da Afiz Gebara, o estudante dessa escola pertence à classe média. Poucos são carentes e vão para a aula com celular, comenta a diretora Silvana Vairoletti. "Antes da chegada dos 14 aparelhos, o colégio ainda usava o giz e a lousa, enquanto muitos alunos tinham computador em casa. Em breve, providenciaremos uma ficha de interesse de vaga porque a disputa está acirrada. Por usá-los com freqüência, quebravam e nem sempre tínhamos verba para arrumá-los. Fizemos parceria com uma empresa privada que dá manutenção e, em troca, permitimos que divulgue seu nome na escola", conta Vairoletti. Pesquisando e brincando no mundo virtual - A sala de multimeios tem seis monitores que se revezam no apoio aos alunos e professores, explica o coordenador pedagógico Eduardo Donizete Xavier. "Os equipamentos estão sendo utilizados pelos estudantes do ensino médio desde o segundo semestre de 2002. Em agosto, começamos a trabalhar informática com os do ensino fundamental." Usuária recente, Bárbara Marto Bernal, 8 anos, está acostumada a acessar a Internet em casa. Disse que brinca com joguinhos animados e com seu desenho favorito, o Tangran (jogo de sete peças que podem construir uma infinidade de formas diferentes). A última pesquisa que fez, com a ajuda da mãe, foi sobre planetas. "Aqui também é fácil e rápido como na minha casa. Só peço ajuda para navegar na rede porque ainda não sei onde clicar." Karolina Ferraz Pedicino, 9 anos, nunca tinha mexido em computador. "Nem sei como liga. Tenho medo de apertar o botão errado. Peço para o monitor ligar e me ajudar a entrar na Internet. Estou gostando de brincar e estudar no site da TV Cultura." Seu colega, Lucas Lisboa, de 10 anos, também não tem computador em casa. Aprendeu a ligar e desligar com as primas. "Não sabia usar o mouse, agora acho fácil brincar de fliperama, com os jogos infantis e navegar no mundo virtual." Acesso ao mundo virtual A montagem da sala de multimeios começa com a definição de lugar adequado para abrigar os computadores. Em algumas escolas, é necessário construir o compartimento para depois colocar o mobiliário e fazer a instalação elétrica e das máquinas. Resolvida essa questão, a sala é equipada com micros munidos de softwares e conexão à Internet. Os critérios para definir a quantidade de máquinas são de acordo com o número de estudantes: instituições com até 400 alunos, recebem cinco computadores e um servidor; as demais, 10 micros e dois servidores. "Os estabelecimentos de ensino privados trabalham com a média de um computador para 70 alunos, com uso não-simultâneo. Para chegarmos a esse número teríamos de fazer outro programa ou buscar ajuda com empresários", observa Lanix. Cabe aos técnicos da FDE auxiliar na escolha (como especificações dos computadores, por exemplo), e definição dos 58 softwares das disciplinas do ensino médio e fundamental, além do acompanhamento do projeto e dos testes necessários. "Examinamos todos os novos equipamentos e programas e atuamos na capacitação de professores", informa a gerente Sílvia Gelletta da gerência de informática pedagógica da FDE. O técnico Marcos Pessoa, lembra que os primeiros computadores instalados não estavam em rede e não tinham conexão com a Internet, mas já usavam tecnologia compatível com os do mercado. "Agora estão interligados e acompanham os progressos do setor. Eles têm CD Roms, fax-modem, impressora, scanner e webcan. Esses aplicativos possibilitaram aos alunos e professores saírem do mundo delimitado pelos muros da escola e conhecer o mundo virtual." Mais 9 mil monitores - A chefe de gabinete da Secretaria da Educação, Mariléia Nunes Vianna, destacou que os softwares utilizados são todos pedagógicos e de excelente qualidade. "A tecnologia dará subsídio para aprimorar o processo de aprendizagem. Estamos adaptando a escola à era da informática e, assim, tornar o ensino mais atrativo." A inclusão digital do professor abrange a capacitação em informática e a possibilidade de compra do aparelho. No ano passado, 50 mil professores participaram do financiamento de compra em que 50% do valor ficou sob a responsabilidade do governo, via contrato com a Nossa Caixa a fundo perdido. A outra metade foi paga pelo mestre. Neste ano, outros 50 mil serão contemplados. Para dar suporte às salas multimeios e apoio aos alunos e professores, 9 mil estudantes estão em fase final de qualificação, em parceria com a Microsoft. Durante o aprendizado, a ser concluído até o final do ano, eles receberão informações úteis não só para entender e atuar em todos os suportes tecnológicos como também para trabalhar em empresas após o término do ensino médio. Em 2002, foram habilitados 400 alunos. Instituições e empresas privadas interessadas em adotar escolas e colaborar com a informatização podem contatar a Secretaria Estadual da Educação pelo telefone (11) 0800 770 00 12. Mais informações sobre os programas pedagógicos como Números em Ação, Trilha de Letras, Inclusão Digital e Aluno Monitor estão disponíveis no site www.patiopaulista.sp.gov.br.
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