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O aspecto curioso da última elevação da taxa básica de juros para 17,75% não foi o governo mais uma vez ter jogado um balde de gelo nos estimulantes indicadores de crescimento do PIB, aumento do emprego e elevação do consumo das famílias. A despeito dessas boas notícias, o mercado financeiro tinha como certo o aumento dos juros - o que efetivamente ocorreu. Ou seja, dentro da previsibilidade crescente que caracteriza a política econômica, está o efeito-abóbora. Cada vez que a festa do crescimento econômico esquenta, vem o governo e recolhe o champanhe. Quem ficar correrá o risco de virar abóbora. Nesse cenário, o setor da construção aposta que em 2005 terá um primeiro semestre ainda vigoroso, como resultado dos investimentos feitos na economia em 2004, mas que provavelmente não se repetirá no segundo semestre, por conta da desaceleração que a atual subida dos juros fatalmente provocará. Assim, se em 2004 o produto do setor deve crescer 6,8% em comparação ao ano anterior, em 2005 essa expansão será menor, em torno de 4,6%. Entretanto, as necessidades sociais chegaram a um grau tão alarmante que, a cada ano, o PIB do Brasil precisaria crescer 10% e o produto da construção, 12%. Para tanto, o país não pode permanecer indefinidamente na armadilha de conter a demanda cada vez que o consumo aumenta. Embora a questão seja complexa, cabe levantar alguns questionamentos. O primeiro é justamente revisitar a noção de que todo aumento do consumo denota uma expansão que, se não for controlada via elevação dos juros, derrubará o esforço feito em favor da estabilidade econômica e do equilíbrio fiscal. O que garante o crescimento com estabilidade é a capacidade de elevar a oferta para atender ao incremento da demanda. Isso deveria gerar novas mudanças de paradigmas. O governo precisa de um choque de gestão, investindo pesadamente e com mais eficiência em expansão da infra-estrutura e da habitação. O crédito para viabilizar o aumento da oferta de moradia e de serviços públicos necessita ser facilitado. A excessiva burocracia e a sangria tributária que travam os negócios das empresas e inibem a expansão do emprego precisam acabar. Ou o governo investe prioritariamente na prevenção das carências sociais ou fatias crescentes dos seus recursos serão exigidas para atender a despesas com saúde e segurança pública. Quanto mais se investir na melhoria da qualidade da educação, menos recursos de governo serão enterrados na construção de presídios. Financiar saneamento básico hoje economizará gastos com saúde amanhã. A dificuldade é que os orçamentos públicos continuam rigidamente amarrados. Se sobrarem minguados 10%, depois de pagar o funcionalismo, a educação e as dívidas, já é motivo de festa. Buscar desengessar o gasto público é outro desafio, que não pode mais ser postergado. Nota do Editor: João Claudio Robusti é presidente do SindusCon-SP (Sindicato da Construção).
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