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Estudo mostra que os alunos mais tolerantes às práticas trotistas tendem a ser mais insensíveis quanto a preconceitos. Predominância masculina, concorrência e tradição do curso potencializam ocorrências.
Enquanto muitas pessoas acreditam que, resguardados alguns limites, o trote universitário é uma atividade de integração e serve como um rito de passagem para os ingressantes ao ensino superior, os professores Antônio Ribeiro de Almeida Júnior e Oriowaldo Queda, do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP têm uma visão completamente diferente. Segundo eles, que desde a década de 90 pesquisam sobre o tema, o trote, além de não promover a integração, cria divisões entre os alunos e diminui a sensibilidade dos mesmos aos mais variados preconceitos. "O trote deveria desaparecer como ação e como palavra", defende Queda, que há mais de dez anos promove atividades com o intuito de esclarecer os alunos e toda a comunidade universitária sobre o tema. Suas pesquisas o fizeram concluir que, neste tipo de recepção, não é possível separar a violência da brincadeira. Durante cinco anos, seus alunos responderam a uma simples questão: citar três atividades trotistas que eram consideradas brincadeiras e três violentas. "O que é brincadeira para um é violência para outro", completa Almeida. A partir de 2002, os professores passaram a aplicar um questionário mais elaborado, na semana de recepção aos novos alunos e ao término do período de trotes, dois meses mais tarde. No total, são mais de 2.000 formulários respondidos e mais de 100 entrevistas realizadas. As duas principais escalas estudadas foram acerca da aceitação do trote e da falta de sensibilidade em relação aos preconceitos, muito comuns nos apelidos recebidos pelos novos alunos e em outras atividades do trote. Segundo eles, existe uma relação diretamente proporcional entre os dois dados: nos alunos em que a aceitação do trote é maior, a insensibilidade aos preconceitos também maior. Na comparação entre as duas medidas a conclusão é contundente: "Em dois meses, eles se tornam mais propensos a comportamentos preconceituosos do que eram quando de seu ingresso na universidade". Instituição Outro fator que colabora para a ocorrência dos trotes, segundo os pesquisadores, é a conivência das instituições. "Há um interesse em manter o trote, pois ele é uma forma de controle social, para implantar uma certa cultura. Acaba-se por impor algumas regras aos alunos, silenciando-os sobre as deficiências da universidade", diz Almeida. Além disso, eles apontam a completa impunidade dos trotistas e a ineficácia das iniciativas no sentido de coibir os trotes. "As campanhas contra o trote, por exemplo, acabam legitimando-o, ao abrir espaço para certas práticas consideradas como simples brincadeiras pelos trotistas". As pesquisas possibilitaram listar pelo menos três fatores que potencializam a ocorrência de trotes nas universidades: "Predominância masculina, concorrência pesada no vestibular e escolas tradicionais são fatores que normalmente estão associados à violência". Como exemplo, Almeida cita os trotes nas faculdades de medicina, engenharia e direito. Alternativas Os pesquisadores acreditam que é preciso abolir o trote, mas sabem que "este é um processo difícil, mas mudanças profundas precisam acontecer". Eles são críticos de iniciativas tais como o trote cultural, solidário e outros, julgando que estas atividades são camuflagens para a persistência do trote e de sua violência. "Estas iniciativas têm mais de 30 anos e o trote, com todos os seus problemas, continua". A USP Leste, cujos cursos de graduação serão inaugurados este ano, poderia servir como um espaço para se testar hipóteses a respeito do trote. "Esta é uma oportunidade para criar uma nova cultura universitária livre do trote. Ele deve ser proibido, de fato, na USP Leste". Na USP, o trote é proibido desde 1999, por meio da portaria GR nº 3.154. Parte do resultado das pesquisas de Almeida e Queda pode ser conferida no livro O trote na Esalq, publicado de forma independente em 2003. No livro, além de expor suas opiniões, os autores relatam diversos casos de abusos por parte dos trotistas da instituição e fazem uma pequena cronologia do trote em diversas faculdades brasileiras.
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