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Ciência e Tecnologia
01/05/2004 - 11h20
A "Língua eletrônica" brasileira
Agência USP de Notícias
 
Avanços na medição e no tratamento dos dados relativos à condutividade elétrica de líquidos colocam a tecnologia nacional na liderança da área. O equipamento pode ter várias aplicações para a indústria e exames de saúde.

Um grupo de pesquisadores de diversas instituições brasileiras desenvolveu um aparelho capaz de reconhecer sabores. Trata-se da "língua eletrônica", que possui uma sensibilidade até mil vezes superior à do paladar humano. Os resultados do trabalho, publicados na edição de março da revista européia Sensors and Actuators B: Chemical, são possivelmente os melhores já descritos na literatura científica de todo o mundo.

No último teste realizado o aparelho "experimentou" 900 amostras de vinho. A "língua eletrônica" pôde identificar, entre seis amostras, a variedade de cada uma delas. "Conseguimos fazer a distinção entre vinhos de tipos diferentes, como o Cabernet e o Cabernet Sauvignon, entre vinhos do mesmo tipo, mas de safras distintas e também entre vinhos do mesmo tipo e da mesma safra, mas de produtores diferentes, com 100% de acerto. Até agora nenhuma pesquisa obteve resultados tão precisos", diz o professor Osvaldo Novais de Oliveira Junior, do Instituto de Física da USP de São Carlos (IFSC).

A "língua eletrônica" é formada por um conjunto de eletrodos de ouro, cobertos com filmes de diferentes polímeros condutores. Quando o equipamento é submerso em qualquer meio líquido, a interação elétrica entre os diversos tipos de polímeros e o meio permite que se obtenham características específicas da condutividade do material. Estas propriedades permitem identificar os líquidos e distinguí-los, mesmo que tenham apenas uma baixíssima diferença da concentração de um componente.

"Se utilizarmos o equipamento para identificar produtos que tenham os sabores básicos, por exemplo, podemos perceber um gosto azedo ou um gosto doce numa concentração mil vezes inferior à que seria necessária para que fosse percebida pelos melhores paladares humanos", considera Oliveira Junior.

Ainda segundo o pesquisador, são dois os principais avanços do método brasileiro. O primeiro é a utilização de filmes condutores de espessura muito fina - oito mil vezes mais finos que um fio de cabelo - para interagirem eletricamente com o líquido, o que permite que sejam obtidos dados de condutividade muito acurados. A outra vantagem é o tratamento das informações por um sistema de redes neurais, que simula o aprendizado humano, e leva a uma interpretação também mais rápida e precisa.

Linha de produção

A classificação dos tipos de vinho deve servir como um instrumento para desenvolver outras aplicações para a técnica. "Podemos utilizá-la para o monitoramento da qualidade da água que consumimos e de qualquer alimento líquido, como já está sendo estudado para o café. Mesmo sendo chamado de ’língua’, o aparelho pode ser empregado em testes que não nos remetem ao gosto, como exames de sangue, de urina e de muitos produtos industrializados".

Na opinião do professor, o uso industrial pode ser feito com o desenvolvimento das bases de dados necessárias e adaptações dos modelos matemáticos. "O método pode perceber características mínimas com mais certeza que análises laboratoriais caras e complicadas e com rapidez suficiente para ser implantado nas linhas de produção. Só não pode dispensar um bom sommelier, porque nunca saberá se um vinho é agradável ou não".

Entre as instituições envolvidas no estudo estão o Instituto de Física de São Carlos (IFSC), o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) e a Escola Politécnica (EP) da USP, a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Unesp e a Embrapa Instrumentação Agropecuária.

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