|
Reflexões sobre o 1º de maio, no momento em que o desemprego chega a 12,8%.
Os índices nacionais de desemprego, como acaba de divulgar o IBGE, ressuscita o conceito de "belíndia", objeto de polêmica em passado não muito distante. O preocupante é constatar que a "Bélgica" é cada vez menor e a "Índia" cada vez maior nos cenários dos radicais contrastes socioeconômicos brasileiros. Essas reflexões remetem ao capítulo 22 de "Sangue, Suor & Lágrimas", livro de Richard Donkin, um dos principais articulistas do Financial Times. No capítulo, intitulado "Uma vida. Viva-a", Donkin descreve a profissão dos dabbawallahs, cujo trabalho é transportar marmitas entre as casas, nos subúrbios, e o local de trabalho, no centro da cidade, dos escriturários de Mumbai (ex-Bombaim). As latas ou dabbas são recolhidas diariamente por esses trabalhadores com as esposas ou mães dos escriturários, levadas até os escriturários e, depois, devolvidas nas residências. Descreve Donkin: "Cada marmita é marcada com pequenos símbolos pintados, indicando onde o dono pode ser encontrado. Os dabbawallahs são peritos na separação e distribuição das latas, trabalhando como elos de uma corrente, passando as marmitas entre si, em diversos estágios. Algumas estimativas calculam que até cem mil refeições sejam entregues dessa forma". Essa inusitada atividade profissional, exclusiva de Mumbai, originou-se do desejo de um único escriturário britânico, há mais de cem anos, de comer, no local de trabalho, as refeições saudáveis preparadas por sua esposa. A mão-de-obra na cidade é barata. Isto significa que o sistema de entrega também tem baixo custo, muito menor do que o de uma refeição em restaurante. O trabalho dos dabbawallahs, podemos avaliar, é análogo à atividade informal de milhares de brasileiros. Como na Índia, também em nosso país atividades como estas acabam tendo significativa importância socioeconômica, considerando que o desemprego, como acabam de demonstrar as estatísticas do IBGE relativas a 2003, continua sendo um problema. Outro trecho do texto de Donkin tem imensa afinidade com a realidade brasileira: "A mão-de-obra é um fator econômico crucial na Índia. Com população imensa, prover um vasto suprimento de comida tornou-se essencial para preservar a ordem e manter os salários em níveis aceitáveis". Ou seja, o ânimo e a iniciativa de empreender são fundamentais. Os entregadores de marmita de Mumbai são um exemplo disso. Demonstrando que nem sempre "trabalho" é sinônimo de "emprego", souberam, ao longo de cem anos, aproveitar a oportunidade de criar um mercado e uma atividade que garantem sua sobrevivência, chegando ao requinte de desenvolver know how específico para manter a qualidade de seus serviços na distribuição ágil e precisa das marmitas, satisfazendo as exigências de seus clientes, os escriturários. O alfabeto dos chineses tem, num mesmo ideograma, a representação da crise e da oportunidade. Sua sabedoria milenar ensina que é nos momentos mais difíceis que se apresentam as melhores oportunidades. Esta reflexão é bastante pertinente neste momento de profundas mudanças na ordem econômica do Brasil e do mundo. Como demonstra "Sangue, Suor & Lágrimas", as relações trabalhistas passaram por grandes transformações, suscitadas pelas revoluções agrária e industrial. Uma terceira revolução está em curso, motivada pelo boom tecnológico. E nesta nova era, a efetiva capacidade de identificar oportunidades, trabalhar e empreender vai substituindo o conceito ortodoxo de emprego. Nota do Editor: Milton Mira de Assumpção Filho, diretor da Editora M. Books, é "Homem de Marketing" (1991) pela Fundação Getúlio Vargas e "Marketing Expert" (1999).
|