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Educação
19/06/2017 - 07h39
Educando para a promoção da saúde
Wanda Camargo
 

Desde algumas décadas, intensificando-se neste novo século, uma grande preocupação tem sido o oferecimento de atividades escolares que possam promover a saúde e afastar o estudante do fascínio oferecido pelas drogas.

Esportes, festas com a participação da família para integrá-la ao ambiente escolar, visitas a hospitais, cuidados com hortas comunitárias e animais de estimação parecem caminhos promissores, pelo menos naquilo que se denomina primeiro estágio, ou seja, a prevenção ao uso antes que este se instale.

Iniciado o uso, outras providências se fazem necessárias, algumas até medicamentosas. Porém, o problema se torna extremamente complexo quando o uso se transforma em dependência, e algumas drogas levam a uma deterioração rápida e profunda da saúde não apenas física, mas principalmente psíquica.

Na maior cidade do país há uma região chamada “cracolândia”; é um apelido cruel e despropositado, como se os frequentadores/moradores vivessem numa espécie de Disneylândia fazendo selfies com o Pateta enquanto consomem crack. A realidade é que nesta área concentram-se centenas de usuários de drogas, e a maioria deles não tem mais nada além da roupa do corpo e de uma efêmera e mortal fuga de sua realidade e miséria quando conseguem uma “pedra” para fumar.

Os poderes públicos encaram essas pessoas e seu território como problema policial antes de ser social e de saúde pública e, sendo poderes, tentam amiúde sanar o mal com o uso da força. Chamam urbanização à demolição desorganizada de casarões usados como moradia, parecem acreditar que a prisão de alguns pequenos “vapozeiros” acabará com o tráfico. E tentam circunscrever o problema a manicômios judiciários ou equivalentes, internando usuários compulsoriamente; na contramão da opinião de muitos especialistas na área, que afirmam que a internação para ser eficaz deve ser voluntária, e mesmo daqueles que entendem que a partir de determinado estágio da drogadição o usuário perde autonomia para decidir, mas ainda deve ter seus direitos fundamentais respeitados.

Com um recente ataque à área da cracolândia, os usuários se espalharam pelo seu entorno, causando reações iradas e/ou assustadas de seus novos vizinhos. Moradores, comerciantes, passantes, foram unânimes em registrar suas queixas quanto à segurança pessoal e patrimonial, reclamaram das condições e locais em que os “viciados” realizavam suas funções fisiológicas e sexuais, criticaram até mesmo o aspecto estético que o “seu” espaço estava assumindo com pessoas andrajosas circulando por ele. E, correndo o risco de ser catalogados como “higienistas”, enquanto nos solidarizamos com os infelizes que não tem mais para onde ir, entendemos também o burguês que reclama, nosso semelhante e nosso irmão. Muitos de nós convivemos amistosamente com moradores de rua perto de nossas casas, eventualmente lhes damos alimentos ou roupas, conversamos com eles, porém são relativamente poucos e se consomem drogas ou álcool a maioria o faz moderadamente. Não conseguimos conceber, no entanto, como seria a convivência com centenas de “nóias”, alguns com patologias graves, outros capazes de cometer violência ao surtar por falta da droga.

A igreja católica registra santos que dividiram roupas e alimentos com leprosos cobertos de chagas, tão malditos à época quanto os moradores da cracolândia hoje. De algum modo, os abnegados que vão diariamente aos espaços de miséria, vício e crime na busca de resgatar aqueles que podem e querem ser resgatados deveriam também ser santificados: fazem o que muitos de nós falamos que deveria ser feito e não conseguimos fazer.

A raça humana convive com as drogas há milênios, e inclusive algumas religiões as utilizam como parte de seus rituais.
Aprender – e ensinar – a conviver com elas é assunto complexo, um verdadeiro desafio ao bom professor.


Nota do Editor: Wanda Camargo é educadora e assessora da presidência do Complexo de Educação Superior do Brasil – UniBrasil.

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