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Um grupo de pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) desenvolveu uma tecnologia que pode resolver o problema de abastecimento de energia elétrica em pequenas comunidades ribeirinhas. As turbinas hidrocinéticas - nome do invento, que funciona como uma espécie de mini-hidrelétrica - prometem se tornar fontes seguras, baratas, ecológicas e estáveis de geração de energia. Uma turbina hidrocinética consiste em um cilindro oco de metal, de tamanho variado - protótipos em teste hoje variam de quatro a nove metros de comprimento -, com uma hélice acoplada em seu interior. Suspensa por um braço mecânico instalado na margem ou flutuando em bóias no meio de um rio, a máquina aproveita a própria correnteza para girar a hélice e acionar um gerador de energia. O professor Franco Morale, do Departamento de Engenharia Mecânica da UnB e um dos coordenadores do projeto, explica que o potencial de geração de energia de uma turbina hidrocinética varia de acordo com o rio onde é instalada. Mas que uma dessas máquinas é capaz de gerar até 20 KW/h ou 14,4 mil KW/h por mês, o suficiente para abastecer cerca de 100 residências de classe média por mês. Vantagens "Colocou a máquina no rio, ela começa a gerar energia. Não tem que fazer barragem ou mexer com o meio ambiente", diz Franco Morale. O professor explica que o custo inicial da máquina é relativamente alto, cerca de R$ 20 mil, mas recompensado por vários fatores. O primeiro é o baixo custo ambiental: além de não precisar de grande obras de engenharia para funcionar, com perigo de alteração na flora e fauna local, as turbinas hidrocinéticas são projetadas de forma que tanto peixes de grande porte quanto outros menores não corram perigo de sofrer um acidente com as pás da hélice. O segundo fator positivo do projeto é a sua durabilidade e manutenção econômica: uma turbina tem vida média projetada de 30 anos, com produção ininterrupta de energia. A única manutenção deve ser feita a cada seis meses: "De tempo em tempo a pessoa só precisa tirar a máquina da água e trocar peças que não valem mais de dez reais. Em meia hora, no máximo, está tudo resolvido e funcionando", explica o pesquisador. O terceiro fator é a adequabilidade do invento. As turbinas podem ser instaladas praticamente em qualquer rio com correnteza. Adaptações para aproveitar quedas d’água ou pequenos desníveis são possíveis e só aumentam a potência gerada. Além disso, as máquinas podem ser instaladas em série, para atender a demandas maiores. Outro ponto é a qualidade e a garantia de energia gerada. Franco Morale explica que o primeiro protótipo da turbina está em funcionamento há nove anos, e durante esse período, não deixou de produzir energia ou provocou oscilações de tensão que pudessem queimar os eletrodomésticos ligados ao sistema. Por fim, a turbina possibilita a comunidades e pontos isolados - e próximos a rios - o acesso à energia elétrica sem a necessidade de uma rede elétrica completa instalada, processo caro e de difícil manutenção. Protótipos O projeto das turbinas hidrocinéticas começou há nove anos, dentro do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Tecnologia da UnB. Apoiado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), a equipe hoje comandada pelos professores Clóvis de Oliveira Campos, Rudi Van Els e Franco Morale já obteve a patente nacional do invento, registrada em nome da UnB. O primeiro protótipo foi instalado nessa época, no município de Correntina, interior da Bahia. Com capacidade de 840 KW/h por mês, o gerador atende a demanda de um posto de saúde, uma escola e uma residência. No próximo mês, a equipe irá instalar uma turbina maior e mais potente no rio Solimões, com capacidade estimada em cerca de 1.600 KW/h por mês. Um dos próximos passos dos pesquisadores será tentar comercializar o equipamento. Possíveis compradores são os proprietários de fazendas ou terrenos rurais próximos a rios e, principalmente, parcerias com o governo para levar a energia elétrica a pontos isolados do país.
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