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Houve um tempo, recente, no século passado, em que o pernambucano Paulo Freire (1921/1997) era o ídolo inconteste dos educadores e intelectuais da esquerda nacional e, em alguma medida, internacional. Miguel Escobar Guerrero, Universidade do México, para citar um, classificou-o "como um peregrino do óbvio, instigando com sua coerência político-pedagógica, a que se criem práticas educativas que dêem voz aos que não a possuem; práticas que entendam o processo de conhecimento como uma prática da liberdade; a pedagogia como uma prática dialógica, utópica e libertadora, uma pedagogia que se construa a partir da realidade e não a partir de conceitos". Nos valores da nossa celebrante sociedade atual, Freire corresponderia a uma celebridade. Entretanto, nem ele nem Andy Warhol - em seus maiores delírios - poderiam prever que até o bom senso poderia ter apenas 15 minutos de fama. Pior, vindo da parcela da esquerda nacional que conseguiu chegar ao poder. Esta é a sensação que se tem ao assistir o ministro Tarso Genro, tido e orgulhoso da sua condição intelectual diferenciada, propor um novo sistema de cotas. A primeira, dos afrodescendentes, já tinha legitimado a discriminação racial dos próprios negros, na medida em que o Estado reconhece pela raça uma categoria inferior de gente, e discriminado os brancos, como seres superiores, como se para qualquer situação a cor da pele bastasse para predestinar um ser humano. Confesso que ainda não consegui entender como são os critérios de classificação dos afrodescendentes. Seria um catálogo de cores, como em loja de tintas, por exemplo? Quem dá a palavra final? O burocrata da universidade? Quem sabe um médico, como os nazistas faziam medindo o tamanho do cérebro das pessoas para classificá-las. Se um estudante branquinho teve um avô negro, seria ele um afrodescendente? Bem, mas isso deve ser ignorância minha. No dia 13 de maio, o presidente Lula, orgulhosamente, apresentou a reserva de mercado para estudantes do ensino médio: "Os estudantes de escolas públicas, geralmente de família de baixa renda, muitas vezes chegam ao vestibular em desvantagem em relação aos alunos de escolas e cursinhos particulares". Certo, presidente. O ministro Tarso Genro complementou: "Não gera privilégios nem cria favoritismos. O percentual é adequado porque é um processo de valorização da escola pública, onde está a maioria de alunos de classe média e baixa". O presidente sentencia o óbvio e o ministro apresenta uma primária falácia. Desde quando ampliar o acesso à universidade tem relação com valorização do ensino médio? O que se desvela por trás dos recursos retóricos dos mandatários brasileiros está uma lógica muito primária e essencialmente estatística. Na verdade, a mesma lógica dissimulada dos defensores do sistema de ciclos, no qual os alunos deixam de ser avaliados pelos métodos convencionais, o que a prática de algumas experiências brasileiras mostrou se prestar apenas para passar alunos despreparados para o ano seguinte. Na estatística o resultado é primoroso. O índice de repetência diminui e, por conseqüência, o da evasão, se considerarmos que a repetência é fator de desestímulo aos alunos. E a perspectiva burocrática vence, tornando relevante o diploma, não a qualidade do ensino, não a escola, não a educação, não o conhecimento. E o sucesso de Paulo Freire sempre residiu no oposto. Para ele, o importante era o conhecimento. O conhecimento é que é libertador, de pessoas e nações. A implantação do sistema de reserva de cotas para o ensino médio, porque "os alunos chegam em desvantagem", nivela por baixo e limita o acesso à universidade de pessoas melhor preparadas, que muito mais poderiam dar ao País. E os que vierem a ter a oportunidade de entrar para uma faculdade pelas portas das reservas de cotas continuarão discriminados no mercado. Afinal, sabe-se, o diploma universitário é uma commodity. Já não se basta em si. Hoje, o mercado de trabalho, que é o mundo real, já passa a exigir MBA. E não um MBA qualquer, desses que já saltam em cada esquina. Um MBA importante vem dos Estados Unidos. E não conseguiremos fazer reserva de cotas nos Estados Unidos para que nossos alunos de ensino público estudem em Harvard ou Princeton. Bem, mas só MBA já é pouco. Hoje, o domínio de uma língua estrangeira é pré-requisito e o domínio de mais uma é diferencial competitivo. E só quem consegue isso são os filhos de classes mais abastadas, seja lá que cor tenham, que estudaram em colégios particulares, que podem bancar um intercâmbio internacional. E volta-se ao ponto zero. Pobre, com diploma universitário, excluído do mercado. O vício de origem desta lógica é flagrante e flagrado pela maioria dos reitores ouvidos sobre esse assunto, apesar de suas justificadamente cautelosas observações. O verdadeiro desafio - que requer coragem, ainda - a que o governo deveria se impor é o de levar conhecimento à população, e não diploma, seja através de uma efetiva qualificação dos ensinos básico, fundamental e médio, seja através de iniciativas menos convencionais. Hoje, tão preocupante quanto a qualidade da educação formal é, por exemplo, a silenciosa exclusão de centenas de milhares de jovens brasileiros do mundo digital. Logo - sem pretender silogizar -, o conceito implícito na lógica das cotas é falso, porque a concepção do acesso amplo à universidade subjuga o relevante, o direito ao acesso ao conhecimento, que dá voz aos que não a possuem, que liberta, que constrói cidadania e dignidade. Nota do Editor: Luiz Fernando Moraes é jornalista.
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