|
O homem ainda não manipula o tempo, mas retarda seus efeitos utilizando um recurso totalmente natural: o gelo. Com as propriedades do congelamento, o ser humano encontrou um aliado para preservar o que o tempo degenera. Mas a insatisfação humana vai longe e, depois de dominar a arte de conservar alimentos pelo frio procura aprimorar técnicas que permitem congelar a vida e protegê-la do envelhecimento e da morte. A necessidade preservar alimentos surgiu na pré-história, quando o homem abandonou a vida nômade formando sociedades fixas. Defumação, secagem e adição de sal ajudaram a conservar a comida durante milênios. Finalmente, por volta de 1880, surgiram nos EUA as primeiras máquinas de refrigeração por amônia. Curiosamente, antes mesmo de conservar alimentos, o homem tentava conservar seus mortos. A esperança de ressurreição desenvolveu, entre os egípcios, técnicas de mumificação tão boas que muitos corpos são encontrados ainda hoje, no calor do deserto africano, onde parece impossível a preservação de matéria orgânica por tanto tempo. As técnicas egípcias, embora comprovadamente eficazes na preservação da forma, nunca foram pensadas para preservação da vida, pois a desidratação é incompatível com a forma de vida que conhecemos. Ao norte do planeta, cerca de 400 anos antes de Cristo, povos nativos da ilhas Aleutianas, no Alaska, criaram outra técnica para conservação de corpos. Essa, mais atraente aos anseios humanos por preservar a água, elemento sem a qual não sobrevivemos. Em 1972, foi encontrado na região um corpo de mulher intacto, com sua pele e órgãos conservados graças à antiga prática de mumificação no gelo. A criobiologia, ciência que estuda o efeito do resfriamento em seres vivos, surgiu nos anos 50, com o congelamento de esperma de touros para inseminação artificial. A idéia originou inúmeras práticas que vão desde o congelamento de esperma, embriões e sangue, e até mesmo de corpos inteiros. Hoje, é incontável a quantidade de embriões congelados que se transformam em animais e seres humanos. Quando nasceu na Austrália, em 1984, a primeira criança cujo embrião foi mantido congelado o conceito da família tradicional sofreu uma reviravolta. Hoje, enquanto avós dão à luz filhos das filhas, viúvas geram crianças de maridos falecidos. E com o congelamento de ovários, desenvolvido recentemente, mulheres com câncer poderão ter seus filhos depois que a doença for erradicada. Da mesma forma, através do auto transplante, é possível receber sua própria medula ou sangue, congelados previamente. Entretanto, o homem não se limita a estas vitórias e parte para desafios maiores, como a hibernação humana. Em 1967, James Bedford, um americano de 74 anos, foi o primeiro a ter o corpo congelado, depois de falecer de um câncer de pulmão. Ted Williams, um jogador de beisebol, teve a cabeça congelada, em julho de 2002, a pedido de seu filho. Desde então, adeptos do mundo todo se dispõem a pagar 120 mil dólares para manter o corpo conservado após a morte, na esperança de que a ciência encontre um meio de trazê-los de volta à vida. Atualmente, há mais de 100 corpos congelados e cerca de 600 clientes filiados em duas das principais clínicas especializadas dos Estados Unidos. A ficção científica também explora o assunto com amplitude na imaginação de roteiristas e escritores. Buck Rogers, herói da televisão e dos quadrinhos, permaneceu congelado por 500 anos e voltou à vida no século XXV. Da mesma forma, o personagem Khan, vilão da popular série "Jornada nas Estrelas", passou parte da sua vida dentro de um freezer. Contudo, se o congelamento de seres vivos é aceito na telas do cinema e da televisão, no plano real ele sofre graves impasses morais. A maioria das religiões condena a manipulação da vida sob a alegação de que o homem não está destinado a alcançar a imortalidade. Mesmo a ciência terapêutica, com fins unicamente curativos, se depara com freqüentes hostilidades entre os defensores da bioética, principalmente quando o assunto é a obtenção de células-tronco embrionárias. Estas células, base da chamada Medicina Regenerativa, podem ser utilizadas para reparar tecidos danificados e tratar enfermidades incuráveis como câncer, lesões da medula espinhal e muitas outras. Estudos revelaram que essas células podem até substituir dentes humanos com o desenvolvimento da terceira dentição. Contudo, as dificuldades para a coleta das células dos embriões, levaram especialistas de diversos países a optar pela utilização das células-tronco do sangue do cordão umbilical e da placenta, por não comprometer os princípios da bioética. Em todo o mudo, inclusive no Brasil, existem bancos privados dedicados exclusivamente a esta tarefa: "A coleta do sangue é realizada logo após o nascimento do bebê. Depois, o conteúdo é encaminhado para o laboratório, onde diversos exames avaliam a qualidade das células que, através de softwares sofisticados são submetidas ao congelamento", explica Dr. Nelson Tatsui, médico hemoterapeuta e diretor da Criogênesis, especializada no congelamento de células tronco há dois anos, pioneira no país. O aproveitamento de células tronco é mais uma demonstração do potencial da Criobiologia. Atualmente mais de 45 doenças podem ser tratadas com a utilização dessas células, e a importância do armazenamento é justificada pela dificuldade de se encontrar doadores para transplante. Além disso, não há riscos de rejeição, uma vez que as células são provenientes do próprio paciente. "As chances de encontrar material compatível são mínimas, principalmente num país como Brasil onde a miscigenação racial é grande", explica o Dr. Nelson Tatsui. Entre o que é possível e comprovado como a utilização do cordão umbilical para curar doenças, e o que ainda é especulação como o congelamento de corpos e cabeças, a Criobiologia tornou-se, nas últimas décadas um investimento que amplia as expectativas de prolongamento da vida. Mas a genialidade humana é ousada, e num futuro que parece muito próximo, talvez o homem finalmente encontre a tão sonhada fonte da juventude ou o segredo da imortalidade. Vamos esperar.
|