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A instituição cooperativa certamente não é algo novo. Mas também é verdade que hoje essa forma de organização do trabalho, da produção, da comercialização, do crédito, do consumo e da prestação de serviços ganha nova vitalidade. Segundo dados da Organização das Cooperativas Brasileiras, o número de cooperativas cresce a uma taxa de 10% ao ano, envolvendo atualmente aproximadamente seis milhões de cooperados em todo o país. Em meio a um mercado cada vez mais desequilibrado e concentrado, a perspectiva de agregação de recursos via cooperação e gestão compartilhada apresenta-se como uma resposta crescente de trabalhadores e trabalhadoras, mas também empreendedores, poupadores e consumidores. O perfil cooperativo tem se alterado na última década, no quadro da crise do emprego. Além dos ramos tradicionais do cooperativismo no Brasil - como no caso da agropecuária, habitação e eletrificação rural -, têm crescido as cooperativas de trabalho, voltadas à prestação de serviços autônomos (médicos, taxistas, técnicos etc.) ou à produção de bens (confecção, alimentação, reciclagem etc.). No segmento da produção, chama também atenção a organização de cooperativas a partir de indústrias falimentares recuperadas pelos trabalhadores, desenvolvendo-se nos mais diversos ramos (calçadista, metalúrgico, moveleiro, alimentício etc.). A qualidade da resposta representada pela cooperativa está exatamente naquilo que ela se diferencia das empresas ou sociedades comerciais tradicionais. Na cooperativa, os benefícios da atividade econômica devem ser descentralizados em favor dos associados. Ela possui, portanto, a singularidade de promover uma forma de cidadania econômica ao permitir que os trabalhadores possam prover a si próprios dos mecanismos de produção e distribuição da riqueza, que de outro modo permanecem concentrados em poucas mãos. Os resultados de uma pesquisa realizada em 2001 pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), em parceria com a Associação Nacional dos Trabalhadores e Empresas de Autogestão (Anteag), com 367 trabalhadores de indústrias recuperadas sob regime cooperativo, são reveladores nesse sentido. 72% dos entrevistados afirmam que não abririam mão do trabalho na cooperativa em favor de um emprego com carteira assinada. Os motivos apresentados: acreditam no crescimento da cooperativa e em ganhos futuros (37%), porque na cooperativa o trabalhador é o dono (18%), e maior liberdade para trabalhar e menos cobranças (17%). Em que pese a sua crescente importância, a realidade cooperativa ainda é pouco conhecida. A grande variedade do universo cooperativo carece de uma maior visibilidade pública sobre sua função social. O Ibase está lançando, em parceria com organizações representativas do setor, um modelo de Balanço Social das Cooperativas exatamente no intuito de oferecer às cooperativas a oportunidade de tornarem públicas e transparentes suas ações internas e externas. Ações que devem se orientar pelos princípios cooperativistas tal como definidos pela Recomendação 193 da OIT (associação voluntária e aberta, controle democrático pelo cooperado, participação econômica do associado, autonomia e independência, educação, capacitação e informação, cooperação entre as cooperativas; e interesse pela comunidade). A responsabilidade social no caso das cooperativas não é algo suplementar como para as empresas, mas sim a sua própria razão de ser. Nota do Editor: João Roberto Lopes é Coordenador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).
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