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Crônicas
27/04/2021 - 07h13
Meu avô pedalando
Henrique Fendrich
 

Haveria um gene da pedalada? Estou tentado a dizer que sim, quando comparo as minhas andanças de bicicleta por aí com o histórico de meus avós. Do meu avô paterno, herdei a paixão pela história, mas é bem possível que essa não tenha sido a única coisa que ele me transmitiu.

No final dos anos 40, ele era pouco mais do que um rapazote e estava apaixonado por uma moça que morava em outra cidade, a 23 quilômetros de distância. Ao menos uma vez por mês, ele pegava uma bicicleta e pedalava até a casa da moça que havia escolhido como companheira.

Saía no domingo pela manhã, passava o dia ao lado da moça e da sua família, às vezes aproveitavam alguma festa, e no final do dia ele voltava para casa. Preferia voltar enquanto ainda estava claro, mas por vezes só saia de lá depois que havia escurecido. A sua bicicleta não tinha farol. Ele usava uma lanterna de mão para enxergar o caminho. Às vezes, acabavam as pilhas da lanterna durante o trajeto. Como desgraça pouca é bobagem, em algumas também estragava a corrente e ele tinha que voltar empurrando a bike.

Em algumas viagens, a chuva lhe surpreendia. E em outras a chuva até já havia parado, mas havia o barro, um barro molhado que por isso colava muito nos garfos da bicicleta. A cada instante, era preciso que meu avô parasse e limpasse os garfos para poder continuar o seu trajeto. Em alguns trechos, contudo, só se podia passar empurrando a bicicleta. E então começava a chover outra vez... Não admira que, nos dias seguintes, meu avô ganhasse um resfriado.

Ele, em verdade, não se importava muito com a saúde naquela época. Nas viagens noturnas, sentia contra o seu corpo e o seu rosto o vento, o frio, o nevoeiro... Pedalava muito rápido, já que queria chegar em casa antes que apagassem as luzes da cidade (era uma época em que as luzes eram apagadas depois das dez da noite). Um dia, depois de uma dessas viagens noturnas, teve uma forte crise de sinusite. Isso fez com que tivesse mais cuidado.

Para se curar, ficou dois meses sem pedalar até a casa de sua amada. Quando enfim retomou a sua rotina de viagens, trouxe consigo uma manta para, na volta, amarrar sobre testa, nariz e boca. Também se comprometeu a pedalar mais devagar - até então, fazia o trajeto de 23 quilômetros em 1h15, o que ele mesmo reconhecia ser uma loucura. Passou então fazer o trajeto não levando menos de duas horas.

Havia também outros tipos de riscos. Mesmo nos anos 40, já se falava em assaltos durante a noite. A moça que ele amava, isto é, a minha avó, temia que lhe acontecesse alguma coisa durante as viagens noturnas que ele precisava fazer só por causa dela. Meu avô tratava de tranquilizá-la. Ele se considerava protegido, pois tinha um rosário no bolso, e nele o olhar terno da Virgem Santíssima que cultuava.

Veio o casamento, que compensou os esforços de meu avô nessa época. Por um tempo, passaram a viver na cidade da minha avó. Nem por isso deixou a bicicleta de ter importante papel para o meu avô. Ele era músico de uma banda tradicional alemã que ensaiava na mesma cidade que ele havia deixado. Se havia uma coisa que ele não admitiria seria deixar de tocar nessa bandinha, então ele precisa se deslocar até lá todas as semanas. Algumas vezes, ia de ônibus, mas em muitas outras ia de bicicleta mesmo. Com o instrumento amarrado às costas: um bombardino.

Imagino o meu avô pedalando em estradas dos anos 40 e 50, movido por um amor - a minha avó e a música -, e o admiro, e sinto que a minha própria andança de bicicleta por aí, tão descompromissada, a princípio, talvez se insira em algo maior, talvez seja algo mais antigo que ainda reverbera em mim.

E há ainda a relação de meus outros avós com a bicicleta, mas isso ficará para outra crônica.

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