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Crônicas
11/05/2021 - 05h46
Mais pedaladas de avós
Henrique Fendrich
 

Se vocês estão lembrados, na semana passada eu falei sobre o meu avô paterno e sua relação com a bicicleta - veículo do qual se valia para chegar até as suas paixões, isto é, a minha avó e a música. Cogitei, ainda, que a pedalada tenha sido alguma espécie de herança genética, considerando o tanto que eu gosto de sair andando de bicicleta por aí. Isso é reforçado pela relação de meus outros avós com as pedaladas.

O meu avô materno era um homem que tinha grande facilidade com consertos em geral. Entendia de mecânica sem ter tido nenhuma base teórica para isso. Desmontava e tornava a montar rádios e outros equipamentos com espantosa habilidade, seguindo com naturalidade alguns manuais incompreensíveis para a média da população. Penso em como ele teria se saído bem em sua vida profissional se lhe dessem as oportunidades certas para o seu talento. Mas não lhe deram, então ele precisava se virar para arrumar meios de sustentar. Já com certa idade, certo dia ele teve uma ideia: abriria uma oficina de bicicletas.

Montou, de fato, uma oficina na casa que era de sua mãe e começou a atender o pessoal da região que tinha algum problema com as suas bicicletas. O meu avô, portanto, foi um bicicleteiro, como esses a quem eu frequentemente preciso acorrer, pois nem de longe eu herdei seus conhecimentos de mecânica.

Existem muitos bicicleteiros por aí que são homens já envelhecidos, que trabalham sozinhos e que não conseguem quase nada com seus serviços - a maioria dos consertos é simples e não se cobra por eles mais do que 10, 15 reais - um remendo em um pneu furado, por exemplo, sai por 7. Como se vive com isso, quantas pessoas precisam aparecer por dia para que se ganhe o suficiente para o mês? Não sei, apenas sei que o meu avô foi um desses homens e que ele não conseguiu sobreviver como bicicleteiro.

De fato, os clientes do meu avô foram menos do que seria necessário para manter o negócio e um dia ele decidiu fechar a sua oficina. Ainda existe na casa da minha avó algumas peças dessa sua oficina, que já caiu no esquecimento para a maior parte das pessoas, mas que eu ainda evoco, por enxergar nela certa beleza e mais um sentido às minhas pedaladas.

Meu avô era pessoa de origem humilde, que durante praticamente toda a vida não pôde dispor do luxo de ter um automóvel. Ele fez muito pelas pessoas que podiam andar de automóvel, pois outro dos seus trabalhos foi o de fazer manutenção de rodovias, mas ele, ele mesmo, quase nunca teve um carro para si, a não ser no curto período em que teve um jipe, adquirido no impulso, como também no impulso chegou a adquirir um cavalo. Em quase toda a vida, os únicos meios de deslocamento que tinha à sua disposição eram as pernas e as bicicletas.

Então não admira que fosse pedalando a mais um de seus empregos, o de guardião de uma fábrica. Essa realidade valia também para a esposa dele, isto é, a minha avó. O lugar em que eles viviam era bem afastado e não havia mercado por perto. Ao precisar fazer compras, a minha avó pegava uma bicicleta e ia pedalando até outro bairro, onde havia mercado. E eu imagino a dificuldade que é pedalar carregado de sacolas, mas minha avó dava um jeito de prendê-las à bicicleta, quando retornava das suas compras.

É, portanto, na tradição bicicleteira dos meus avós que as minhas pedaladas se inserem. Na maior parte das vezes, porém, essas minhas pedaladas não têm um objetivo específico como tinham meus avós: eu pedalo, simplesmente, porque gosto de pedalar. Pedalo para espairecer, para contemplar, para refletir sobre coisas como essa: o papel das bicicletas na vida de meus avós. E o quanto eu ainda tenho deles.

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