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Opinião
12/05/2021 - 06h18
Nhô Tiba e seu almanaque
Dartagnan da Silva Zanela
 

Amigo leitor, se você está com dor de cabeça, dor nas cadeiras e no corpo inteiro; se você está ranhento e com aquela febre de fritar ovo na testa, eu te apresentarei a solução! Primeiramente, faça aquela gemada bem batida [delícia]. Depois, pegue um baita limão, corte em rodelas e macere o bicho com um bom tanto de açúcar, mel e misture tudo com uma bela dose de cachaça. Feito isso, mande tudo pra dentro. É tiro e queda. Pelo menos era assim que seu Belmiro fazia pra curar suas gripes e resfriados.

Se funciona, eu não sei. Sei apenas que era isso que ele sempre dizia para sua senhora quando estava tomando uma caipirinha com gemada. Bah! E não tinha uma semana que o homem não realizava o seu tratamento alternativo. Segundo ele, era melhor prevenir do que remediar.

Dica dada, vamos para a pauta do dia: uma fofoquinha vinda diretamente das páginas amareladas e empoeiradas da história (e história com “h” minúsculo mesmo).

Todos nós sabemos que nos idos da Primeira República, que após o golpe de 1930 passou a ser chamada pelos revolucionários de “República Velha”, as fraudes eleitorais eram uma constante. Na verdade, a regra era: vence quem fraudar melhor. E, também, como é do conhecimento de todos, fraudar é uma arte e, enquanto tal, exige de seus artífices uma boa dose de criatividade.

Neste período histórico, que estamos nos referindo, houveram casos de fraude que, devido a sua singularidade, acabaram entrando para os anais da história e, segundo dizem, tal entrada foi bastante incômoda.

Um dos casos ocorridos nesses idos, e que gostaríamos de trazer para a luz do presente, foi um que teria sido encenado no Rio Grande do Sul [Tchê], por ocasião de uma das várias reeleições de Borges de Medeiros para a presidência do Estado gaudério. Sim, a Constituição do Estado dos Pampas permitia a reeleição ad infinitum para a presidência junto ao Palácio do Piratini. E, para que isso ocorresse, era necessário que o postulante tivesse uma maioria de três quartos da Assembleia, conforme regia o artigo nono da constituição estadual.

Bem, segundo contam as más línguas, em 1923, ao final da votação faltavam alguns votinhos para confirmar a quinta reeleição do senhor Borges de Medeiros. Diante disso, os deputados borgistas - Getúlio Vargas, Ariosto Pinto e José Vasconcelos Pinto [também] - foram ter com o homem para contar-lhe a enfadonha notícia.

Borges, vendo as caras de bunda dos seus correligionários, mais do que depressa se adiantou a eles, e disse: “Já sei. Os senhores vêm dizer-me que a Assembleia Legislativa ratificou a honrosa convocação do povo gaúcho para que eu os governe pela quinta vez. Aceito. Muito obrigado. Passar bem”.

Como todos podem imaginar, esse homem, cria do senhor Júlio de Castilhos, era um cabra tinhoso e, os referidos deputados, diante de tão onipotente declaração, nada disseram. Apenas balançaram a cabeça afirmativamente, viraram para trás e voltaram à Assembleia Legislativa para que o deputado Getúlio Vargas desse um jeito de falsificar, digo, de conseguir mais alguns votos para constar na ata eleitoral. Que coisa hein.

Bem, nessa mesma eleição, ocorrida em 1923, outras línguas, tão mal dizentes quanto as anteriores, nos contam que na cidade de Cachoeira do Sul, um cidadão de bombacha largou seu voto sobre a mesa. Lembrem-se, nesses idos da primeira república o voto não era secreto. Era aberto.

Para surpresa dos mesários, que eram borgistas, o voto do gaudério seria sufragado em favor de Assis Brasil. Então, o senhor João Neves da Fontoura, indagou: “Como é teu nome xiru velho”? “Como”? “Qual é tua graça rapaz”? O cidadão, com o olhar perdido, mirando para o nada, começa a escarafunchar seus bolsos à procura de um documento. Não encontrando, ele voltou-se para trás e perguntou para os seus acompanhantes: “Como é mesmo o meu nome”? Mas que barbaridade tchê!

Pobre homem. Estava votando em nome de um guapo finado a mando de um cacique político da região para tentar desbancar os velho Borges de Medeiros. Pois é. Como diríamos hoje: “deu ruim”.

Seja como for, Vargas, enquanto deputado da primeira república, conhecia muito bem as maracutaias que regiam aquela estrovenga democrática, porque participava ativamente da brincadeira e, talvez, por isso mesmo, ele resolveu, junto com uns parças, mudar as regras da brincadeira, tendo em vista que em 1930, o senhor Júlio Prestes, com a ajuda de Washington Luiz, falsificou mais, digo, soube brincar melhor, desancando o candidato gaúcho.

É. Getúlio não sabia perder e, também, não sabia largar o osso e, possivelmente, poderíamos imaginar ele dizendo: “Belém, Belém, Belém, o poder é só meu e de mais ninguém”.

Ah! E é claro que tudo isso era feito em nome da nação, da democracia, do povo e similares. Toda maracutaia é sempre realizada em nome de elevadas causas. Sempre. Assim era na república velha, assim continua sendo na Nova República, a sexta edição desse circo republicano oligárquico que, por módicas contribuições não contabilizadas na forma de mensalinhos e mensalões, covidinhos e covidões, levam figurinhas e figurões a não se cansarem de desanimar [mais ainda] as almas [depre]cívicas sorumbáticas dessa triste nação.

Mas não criemos pânico! Em breve, tudo isso irá acabar. A Câmara dos Deputados irá convidar o senhor Guilherme Boulos e o senhor Felipe Neto (bem esse) para debater a Lei de Segurança Nacional. Agora, definitivamente, está tudo resolvido. Apenas não entendi porque não convidaram a senhora Anitta para integrar a mesa.

Enfim, se a tristeza do Jeca for grande demais, não nos esqueçamos que canja de galinha, caipirinha e gemada não fazem mal pra ninguém.


Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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