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Opinião
04/08/2022 - 06h05
O amor reduzido a uma ação burocrática
Dartagnan da Silva Zanela
 

É muito fácil falarmos em misericórdia, muito fácil mesmo, agora, manifestarmos ela em nossos atos cotidianos, e reconhecermos a sua presença nas ações dos outros, são outros quinhentos.

Quando nos vemos diante dos desvalidos da terra, que vivem costeando o latifúndio da existência, muitas vezes dizemos para nós mesmos, como uma forma de justificativa para a dureza do nosso coração, que os infelizes desse mundão, sem eira nem beira, estão a sofrer justamente porque o Estado não cumpre devidamente a sua “função social”, porque as autoridades não desenvolvem políticas públicas com vistas a resolver as inúmeras questões de “justiça social” pendentes em nossa sociedade, ou porque milionários e bilionários pouco ou nada fazem por eles.

Que muitas autoridades e poderosos se fazem de Pilatos diante do sofrimento de inúmeras pessoas, esse é um ponto que não se discute. O que não reconhecemos é que nós também portamo-nos feito Pilatos, quando delegamos ao Estado a realização de atos que deveriam refletir a virtude teologal da caridade e esperamos, não, exigimos que o Leviatã os realize com uma perfeição sacramental.

Mas o Estado, o mais frio dos monstros frios, como bem observou Nietzsche, facilmente transforma uma obra de caridade no seu oposto e, faz isso, sem o menor pudor. E o que viria ser uma manifestação de amor de um indivíduo por seu semelhante, acaba se convertendo na criação de um vínculo de dependência perene de inúmeras pessoas a grupelhos que instrumentalizam a maquinaria política, a estrutura social e, até mesmo, a vida daqueles que padecem.

Infelizmente, todo aquele que chega ao poder, cedo ou tarde, acaba adotando a regra que todos aqueles que lá estão, há muito tempo, embrenhados nas vísceras estatais, religiosamente seguem: eles irão fazer de tudo para permanecer por cima da carne seca. Por isso, instrumentalizar a desgraça alheia, para gente deste naipe, é café pequeno.

Não apenas as potestades estatais agem desse modo. Ora, quantas e quantas empresas não realizam ações similares para marcar alguns pontinhos como empresa “socialmente responsável”? Quantos e quantos movimentos políticos, ditos sociais, não fazem obras similares para mostrar para todos que eles fazem o que os seus desafetos políticos deveriam estar fazendo, mas não realizam? Pois é, a lista é grande e vai longe.

Agora, se as potestades estatais, entidades políticas e corporações têm todo esse poder sobre aqueles que praticamente não tem poder algum, em grande medida isso se deve a dureza do nosso coração que coloca as soluções políticas estatais no lugar [e bem acima] da ação individual e comunitariamente caritativa. Literalmente, sem nos darmos conta, invertemos a ordem de importância das coisas.

Se realmente procurássemos conhecer, com a devida atenção, as grandes obras que foram realizadas pelos grandes santos da Igreja, nos mais diversos momentos da história, nos mais variados cantos do mundo, iríamos constatar, com uma tremenda vergonha, que essas joias da coroa celeste fizeram muito por muitos sem ter praticamente nada e sem se candidatar a patavina alguma.

Um bom exemplo é o hospital fundado pelo Santo Padre Pio de Pietrelcina, em San Giovanni Rotondo, a "Casa do Alívio do Sofrimento", que hoje é um hospital de referência na Europa. Um capuchinho que nada tinha, procurou dar tudo para aqueles que mais necessitavam e, assim o fez, e continua a fazer, porque sua obra continua viva.

Sim, Padre Pio era insultado e caluniado por muitos, mas isso não o atingia de maneira alguma. A única coisa que o preocupava era servir a Deus servindo ao próximo. Ele, de modo algum, portava-se como divino para se servir dos outros, como frequentemente vemos neste mundo onde tudo e todos são instrumentalizados.

Ah! E não nos esqueçamos do Anjo dos pobres da Bahia, a Santa irmã Dulce. A frágil freira que a partir de um galinheiro edificou um hospital em Salvador. Mais uma vez, uma pessoa que, como o Padre Pio, não tinha nada e, nada tendo, tudo providenciou e, por fazer isso, por não conseguir deixar de fazer isso, de amar o próximo, também foi caluniada, perseguida, insulta e, da mesma forma, continuou a servir a todos sem se servir de ninguém.

Pois é, isso tudo é caridade, e mostra a todos nós algo que o Estado, com seus principados eleitos, e demais apaniguados, jamais realizará. Não porque não disponha de recursos, ou porque não exista a tal da “vontade política”. Não. Nada disso. É porque nas ações estatais e corporativas não se faz presente nem um cadinho do amor que havia no coração de Santa irmã Dulce, do Santo Padre Pio e de incontáveis almas aquilatadas que se fizeram, e se fazem, presentes neste vale de lágrimas.

Amor esse que, também, não impera em nossos míseros corações peludos de “senhoritos satisfeitos”, como diria José Ortega y Gasset, travestidos de cidadãos, tendo em vista a nossa imensurável omissão.

Detalhe importante: não estou dizendo, de jeito maneira, que não deva existir obras filantrópicas privadas e políticas públicas de assistência social. Nada disso. Estou apenas e tão somente, chamando a atenção para a baita inversão na ordem de importância que estamos cultivando em nossa alma ao reduzirmos o amor ao próximo a uma fria ação burocrática, com cartazes nas ruas e chamadas nas redes sociais para sinalizar a virtude que, na prática, não existe mais.

Enfim, sem nos darmos conta, quando colocamos o que se convencionou chamar de “justiça social” acima da caridade, é porque, de certa forma, como diria Chesterton, o que estamos ansiando é que o mundo seja um lugar bom sem que, necessariamente, tenhamos que ter um bom coração.


Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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