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Opinião
04/10/2022 - 06h31
E-cigarrette: aliciamento eletrônico
Acedriana Vogel
 

A travessia da adolescência na vida humana é repleta de riscos. Talvez por isso seja tão fascinante, com momentos dignos de serem guardados para sempre, situações memoráveis! O proibido ganha sabor. Isso porque mistura a explosão de hormônios às inúmeras oportunidades de experimentação, inerentes ao processo de autoafirmação, uma passagem obrigatória para a construção da identidade. Por tudo isso, a presença de adultos ganha relevância não somente para acompanhar de perto, ajudando nas escolhas, mas, sobretudo, na condição de ex-adolescente, conhecedor das dores e dos sabores dessa época da vida.

E as tentações pouco saudáveis são muitas. Infelizmente, as pesquisas mostram que voltamos a crescer no que diz respeito ao tabagismo entre os estudantes de 13 a 17 anos em todo o mundo. Agora embalado de forma eletrônica, o fumo é um item de consumo que há décadas desafia o trabalho de combate ao tabagismo desenvolvido por pais, especialistas e professores. O vape ou pod, como são chamados os cigarros eletrônicos, invadiu as baladas e as escolas sem deixar rastro. Literalmente, já que o cheiro característico do consumo do cigarro convencional não existe nos modelos eletrônicos ou, quando existe, é agradável, com notas de frutas, menta e outros odores aparentemente inofensivos.

Esse dispositivo chegou como uma alternativa de transição menos nociva para que adultos conseguissem abandonar o vício no fumo. No entanto, com o passar do tempo, o pod acabou se transformando em uma febre entre adolescentes que, além de não serem viciados em cigarros convencionais, também desconheciam, em grande parte, estar consumindo um produto com nicotina. Ou seja, em vez de reduzir o contingente de fumantes, o cigarro eletrônico trouxe para o vício uma nova horda de pessoas, em sua maioria jovens.

Muitos estudos dão conta de uma série de prejuízos associados ao uso desse dispositivo. Uma pesquisa realizada na Universidade do Sul da Califórnia (USC), nos Estados Unidos, associa o uso de cigarros eletrônicos a mudanças biológicas responsáveis por uma série de doenças. De acordo com o estudo, que foi publicado na revista Scientific Reports, as substâncias contidas no produto desregulam genes mitocondriais e interrompem vias moleculares que atuam na imunidade e nos estados inflamatórios. Isso significa que o organismo perde parte da capacidade de combater doenças e pode, além disso, desenvolver doenças autoimunes. De fato, ainda não se pode dimensionar todos os malefícios do uso constante do cigarro eletrônico, mas o que já está mapeado é suficiente para entender que se trata de uma escolha capaz de comprometer a saúde física e mental ao longo da vida.

Tudo o que é elevado à categoria de novidade ganha potência na adolescência. Por isso, precisamos de uma aldeia mobilizada para desencorajar o uso desses produtos e não permitir que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) volte atrás na proibição, vigente desde 2019. Se, de um lado, há uma estratégia da indústria do tabaco para aumentar o número de fumantes, do outro, há muitos adolescentes fragilizados pela reclusão pandêmica, querendo se esconder no vapor desse dispositivo descolado e sedutor. É quase uma combinação perfeita, não fosse o despertar da família e da escola para a centralidade desse tema, trazendo como pauta de trabalho a conscientização dos adolescentes em relação aos riscos desse consumo.

Já entendemos que somente a escuta ativa, o olhar atento e o diálogo construtivo serão capazes de reconectar os adolescentes às contribuições experientes dos adultos - pessoas que já passaram pelos mesmos dilemas e lidam até hoje com as consequências das escolhas que fizeram.


Nota do Editor: Acedriana Vicente Vogel é diretora pedagógica do Sistema Positivo de Ensino.

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