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Crônicas
13/06/2004 - 12h04
O senhor da verdade
Dartagnan da Silva Zanela
 

É engraçado como que se pode perverter um debate e mesmo inviabilizá-lo, sem, no entanto, demonstrar que houve tal distorção. Normalmente, o que se chama de debate é a apresentação de uma posição unilateral, maquiada de bom mocismo, de "elevadas virtudes" onde um grupo de pessoas dialoga sobre um tema onde todos apresentam as suas "opiniões" advindas de uma mesma matriz ou com vistas a um mesmo meio de solucionar a pendenga em pauta.

Infeliz daquele que aparece no meio da panelinha ideológica para apresentar uma idéia que fuja ao padrão que estava sendo apresentado de maneira unânime até ali. Digo infeliz, pois, este faz desmascarar a imagem de contenda intelectual e demonstra que muitas questões estão sendo excluídas do dito debate. Para rechaçar o referido questionador usa-se de inúmeros estratagemas erísticos, de falácias, para desfocar o ponto apresentado pelo interventor indesejado.

Uma forma extremamente eficiente é o descontrole emocional na resposta ao apontamento levantado juntamente, é claro, com uma desqualificação subjetiva do argumento objetivo. A pessoa altera a voz em um tom de autoridade justiceira, de revolta e indignação que, comove de maneira pervertida toda e qualquer alma despreparada para uma contenda de idéias.

Outro subterfúgio deveras interessante e largamente utilizado é o termo SOCIAL, o qual, como em um passe de mágica, faz qualquer argumento levantado, mesmo que tenha grande relevância, ser mais que depressa desqualificado por supostamente não contemplar as ditas "questões sociais". Para o consenso comum, basta falar no social para validar a sua resolução e desdenhar outra.

Mas, a minha preferida é quando o interlocutor que se vê acossado por um argumento contrário ao seu, passa de um mero debatedor para um baluarte das classes menos favorecidas e fazendo uso da desgraça de outrem, procura justificar a sua posição como se um dramalhão fosse prova empírica de veracidade científica.

Parando um pouco para refletir, quantas e quantas vezes não presenciamos cenas similares e quantas e quantas vezes não acabamos, por descuido ou falta de bom senso mesmo, recorrendo a esse tipo de estratagema? E com toda certeza não foram poucas. Por isso, como a muito Aristóteles nos aconselhava através de sua obra DOS ARGUMENTOS SOFÍSTICOS: "[...] tanto o raciocínio como a refutação às vezes são genuínos e outras vezes falsos, conquanto a inexperiência possa fazer com que pareçam autênticos, pois as pessoas bisonhas só avistam essas coisas a distância, por assim dizer".

Como também o próprio Arthur Schopenhauer em sua DIALÉTICA ERÍSTICA nos advertia que: "[...] são duas coisas bem distintas a verdade objetiva de uma proposição e sua validade na aprovação dos contendores e ouvintes.[...] Muitas vezes, no princípio de uma discussão, estamos firmemente convencidos da verdade de nossa tese; mas agora a argumentação do adversário parece derrubá-la e, se renunciamos de repente a defender nossa causa, com freqüência acabamos depois notando que, apesar de tudo, tínhamos razão".

E no que é baseado a "vitória" em um debate? Ops, na aprovação "democrática" do público ouvinte que confere a X maior veracidade que a Y, meramente pela aparência de uma preposição e não simplesmente a vitória da verdade através de uma troca de idéias através de argumentos.

Bem, mas apesar de todos os problemas, todos os obstáculos que tal situação traz para o desenvolvimento de um debate sadio e sério, temos que admitir que o negócio é divertido, afinal, é melhor rirmos do que nos debulhar em lágrimas.


Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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