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Opinião
17/06/2004 - 17h53
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Angelo Nogueira
 

Pulsos acostumados a relógios caros ostentam hoje a nova tendência da moda para corruptos: as algemas. Elas nunca estiveram tão em alta nas passarelas governamentais, principalmente entre os "tops" da política nacional.

É claro que uma ou outra quadrilha de colarinho branco desbaratada é muito pouco num país onde há tanta corrupção. Mas duas coisas parecem bastante positivas nesse cenário: os casos de improbidade administrativa estão mais visíveis e os escândalos envolvendo os, até agora, intocáveis estão tendo curso nas esferas policial e judicial, onde nem sequer conseguiam chegar.

Os políticos são o espelho da sociedade que os elegeu, embora esta se veja com olhos mais condescendentes. A corrupção atrai a ganância, contamina os indivíduos, corrói a dignidade dos cidadãos e compromete as gerações futuras. Os que dela compartilham ativa ou passivamente ou os que, de alguma forma, dela tiram proveito são tantos e agem com tamanha naturalidade que levam a crer que seja algo normal no cotidiano da vida pública e da sociedade.

Outros países entenderam há mais tempo o impacto negativo da corrupção na educação, na saúde e na economia. Embora no Brasil existam leis para punir não apenas o roubo do dinheiro público, mas também seu gasto irresponsável, elas só têm força no momento em que uma sociedade passa a considerar a corrupção inaceitável e decide se organizar para não mais tolerar essa prática.

Ribeirão Bonito, no interior de São Paulo, fez isso. Através de uma organização não governamental do município e com o apoio da comunidade, os atos das autoridades municipais foram monitorados, cobrados e contestados, confirmando as suspeitas de fraudes há muito existentes. Como resultado, o prefeito renunciou para não ser cassado, teve sua prisão decretada e hoje responde a diversos processos judiciais. A ação da ONG demandou tempo e trabalho e seus membros tiveram de conviver com ameaças e falsas acusações, ou seja, aquilo que se pode esperar ao enfrentar corruptos. Entretanto, o exemplo de Ribeirão Bonito já está sendo seguido por outros municípios.

Toda comunidade deve se fundamentar em regras que defendam os interesses coletivos, colocando-os acima dos interesses individuais ou de grupo. É direito e dever de seus membros eleger seus representantes e livrar-se deles caso não mantenham um comportamento ético.

Assistir ao desfile de corruptos poderosos, ricos e célebres - ainda tentando manter o glamour, mas tropeçando no salto alto - pode ser um marco de mudança. Ninguém mais está livre de ser desmascarado. Muitos dos que se julgavam acima das leis, com certeza, já perderam o sono.

Se a moda da algema pegar, vai cair bem em muita gente!


Nota do Editor: Angelo Fonseca Nogueira Junior é de Caraguatatuba, SP - E-mail: angelonogueira@modulo.br.

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