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Crônicas
21/06/2004 - 05h04
Viagem a Cuba
Selvino Heck - Pauta Social
 

Estar pronto e disponível para o diferente. Eis a regra primeira e básica para quem vai viajar a Cuba. Foi com este espírito que me preparei e embarquei no avião. Embora estivesse indo em viagem oficial do governo brasileiro, em nome do TALHER nacional do Programa Fome Zero e do Ministério de Desenvolvimento Social e de Combate à Fome, para participar de um Encontro sobre Segurança Alimentar e Nutricional, esta minha primeira viagem à ilha mais do que famosa tinha sabor de novidade e expectativa.

A viagem é longa. Sai-se de São Paulo ao meio dia, tem conexão no Panamá, até chegar em Havana à meia noite. Em São Paulo e no Panamá, as vitrines luminosas, o brilho tradicional capitalista, a propaganda de produtos de consumo. Em Havana, já não há anúncio de produtos, nem grandes outdoors de publicidade. A não ser frases de estímulo e idéias de algum comandante da Revolução, especialmente do Che.

O chamado socialismo real acabou no final dos anos oitenta, com a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética. Sobrou Cuba, mas que foi muito afetada, não só no campo político, por causa do crescente isolamento, quanto na questão econômica, porque dependia muito do petróleo e da ajuda econômica da União Soviética. Em Cuba a resistência continua, na construção de um outro modelo de sociedade.

A propriedade é quase toda do Estado. Nos últimos anos abriu-se a possibilidade de ter proprietários rurais autônomos, já feita a reforma agrária, e pequenos estabelecimentos como os "Paladares" (famílias que, dentro de casa, têm um pequeno restaurante). Os salários são quase todos iguais, ou muito semelhantes em valor entre si. A escola é gratuita para todos e todos têm acesso. Agora, o projeto é universidade para todos. A saúde é gratuita para todos. Há um médico e uma enfermeira para cada 120 famílias. O aluguel, para quem precisa pagá-lo, é praticamente simbólico. Há garantia de uma quantidade de comida para todos, oferecida pelo Estado.

A forma de organização da sociedade é outra. Se a gente olhar com os nossos olhos, não vai entender. E já vai sair criticando, sem levar em conta uma lógica diferente. O que não quer dizer que não haja coisas criticáveis ou que a gente não concorda. Como as empresas são em sua maioria do Estado, a organização prioritária é sob forma cooperativada e os salários são pagos pelo governo. O partido é único, o que é muito diferente da realidade brasileira, onde há o pluripartidarismo. As eleições, que acontecem normal e regularmente em Cuba, são entre as pessoas que apresentam para os diferentes cargos e espaços parlamentares do mesmo partido, não necessariamente filiados ao Partido.

Há poucos dias, em razão da presença da seleção cubana de futebol, que foi treinar no Brasil para as eliminatórias da Copa de 2006, perguntaram aos jogadores quanto ganhavam para jogar. Responderam que recebem o mesmo que qualquer trabalhador cubano, e que jogam por amor ao esporte e para defender a pátria. E não pretendem tornarem-se ricos ou milionários, como acontece no Brasil com os esportistas em geral, especialmente os do futebol, todos no estrangeiro. E com isso, todos sabemos, Cuba é uma potência esportiva, embora tenha uma população igual à gaúcha e geograficamente seja quase três vezes menor.

Enfim, é como entrar noutra realidade e noutro contexto. Os valores são outros, o que explica a capacidade do povo cubano de, apesar do bloqueio econômico de mais quarenta anos por parte dos Estados Unidos, não terem se abalado em suas convicções fundamentais. É bom, às vezes, respirar outros ares e conhecer outras dimensões, até para relativizar um pouco mais o que se vê e ouve todos os dias aqui no Brasil, o que se pensa, confrontar idéias, opiniões, formas de pensar e de viver. Há muitas contradições, sem dúvida, neste modelo diferente do nosso, mas isso já é outra história e fica para uma outra vez ou artigo.


Nota do Editor: Selvino Heck é integrante do TALHER nacional do Programa Fome Zero e da direção do Centro de Educação Popular (Camp).

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