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Ser perfeito é tarefa difícil. Nunca sei onde as pessoas verão minhas imperfeições. Se me dedico a aperfeiçoar minha força, posso ser criticado por não ser bonito ou rico o suficiente. Se me esforço para me tornar inteligente, posso ser punido por me esforçar por isso, por não conseguir ser naturalmente inteligente ou por não desenvolver uma inteligência sensível e delicada. Há embutida nisso a idéia de que existe uma constante vigilância ao meu redor, uma ou várias pessoas que observam meus vícios e virtudes como se houvesse uma câmera focalizando minha nuca, esperando o momento em que eu cansaria deste teclado e tiraria meleca do nariz. Dizem por aí que não há uma existência em si, não há virtude sem espelho, não há vida sem testemunhas, vida que não seja social. (Sim, é bem possível ser mau consigo mesmo, sozinho, fechado num quarto. A idéia de desdobrar-se em sujeito e objeto de uma mesma ação cria uma dialética semelhante à da vida social. Do que vi no cinema, Tom Hanks representou essa idéia no filme "Náufrago"). Essas coisas me fazem pensar que a perfeição diz respeito principalmente (mas não somente) à escolha dos nossos juízes, à quantidade e qualidade deles. Pessoas diferentes julgar-me-iam de formas diferentes. Nenhuma delas estaria totalmente errada ou totalmente certa. O que me faz pensar também que as únicas virtudes que independem da disposição alheia são aquelas que não criam indisposições ou, sem generalizar, aquelas que melhor as evitam. Por exemplo, a paciência, a tolerância e a humildade, virtudes que não pressupõem uma ação (às vezes as anulam). As virtudes que as pessoas mais apreciam atualmente são aquelas que elevam quem as tem. A força, a coragem e a competitividade são muito prezadas - paga-se por elas, inclusive. Não se apreciam, curiosamente, as virtudes passivas, aquelas sem as quais as virtudes ativas se tornariam risíveis. Não se admira, por exemplo, a humildade que oferece reconhecimento à força alheia, ou o quieto que pacientemente ouve seu interlocutor. As virtudes se misturam; há força em ser fraco, assim como pode haver fraqueza em querer ser forte. Na realidade, definem-se virtudes e vícios também através dos verbos. Saber ser fraco pressupõe uma capacidade, uma ação introspectiva. O saber não exige expressão. Querer ser forte pressupõe desejar para si algo que não se tem ou que lhe é externo. De um modo geral, saber é um verbo passivo, sem movimento. Querer expressa atividade, quase sempre indica um movimento de dentro para fora. Pode-se dizer que as virtudes mais importantes são aquelas que exigem uma ação interior, embora isso não seja suficiente para defini-las (pode-se, por exemplo, ser justo com os outros e injusto consigo mesmo). Querer ser justo, saber ser justo e pagar para ser justo, evidentemente, indicam justiças diferentes -e pessoas mais ou menos justas. Quase sempre a virtude se define através do verbo. O adjetivo apenas lhe torna compreensível para os leigos, aqueles que não compreendem a diferença entre ser bom e fazer o bem.
Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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