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Opinião
11/08/2006 - 18h02
Será o capitalismo uma doutrina materialista?
Klauber Cristofen Pires - Parlata
 

Ao lado de classificar os cidadãos dos países capitalistas como consumistas, sobre o que já foi discorrido no artigo anterior, tem sido moda xingá-los também de materialistas. Certa vez, em certo comercial veiculado pela MTV, listava-se um rol de diversas personalidades mundiais que recebiam adjetivos que traduzissem uma certa visão de mundo; o presidente George W. Bush mereceu o de "materialista". Teria o comercial a intenção de referir-se apenas o presidente do EUA, ou a todos os norte-americanos, por fazerem parte de uma sociedade "materialista"?

Hoje, em nosso país, é recorrente ver alguém disparar o epíteto a quem ouse desfrutar de algum bem qualquer, seja uma simples roupa ou um celular ou um carro. O craque Ronaldo que o diga: não roubou ninguém, não participou de nenhum "mensalão", mas pagou caro pela extrema petulância ao comprar uma Ferrari com o dinheiro que conquistou trabalhando honestamente.

Esta juventude, que estuda em colégios e universidades particulares e se encontra em shopping centers e clubes, são todos uns "burguesinhos materialistas". A "loira", então, não teria sido consagrada como "burra" se não representasse uma classe de mulheres "extremamente" materialistas...

Que tal então refletirmos um pouco sobre isto?

Por primeiro, cabe perguntar: haveremos de entender que o engenheiro é materialista? Ora, dir-se-ia, a engenharia somente está preocupada em inventar e construir coisas materiais... Da mesma forma, serão o médico, o químico e o advogado também materialistas, por aplicarem seus conhecimentos especializados em prol de algum mister? A pergunta, como se vê, já traz em si a resposta: seja o capitalismo um sistema de sociedade, ou a ciência que traduz o seu estudo, não tem como objetivo oferecer às pessoas um caminho para a salvação das almas, mas sim, só e simplesmente, produzir coisas materiais, para melhorar o seu bem-estar.

Não cabe perguntar se tais indivíduos irão para o céu. Qualquer ação humana tem o propósito de modificar, para melhor, uma dada situação, de forma a diminuir o desconforto daquele que age. Opera-se o serrote sobre a madeira para transformá-la, por exemplo, em uma cadeira. Àquele que a adquire espera-se que melhore seu padrão de vida, por entender que se sentar no móvel é melhor do que no chão. Neste sentido estrito - e objetivo - é permitido afirmar que tal pessoa atinge a sua felicidade, assim entendida como a sua satisfação pessoal.

Contudo, conquanto se possa afirmar um conceito "objetivo" de felicidade, cuja aplicação encerra-se somente no escopo da busca da diminuição do desconforto material, o mesmo não ocorre com o seu sentido "subjetivo". Este é - como se diz - pessoal e intransferível. Ninguém tem a capacidade de ler as mentes alheias para então medir a felicidade ou enlevo espiritual de seus donos, bem como nenhum idioma conhecido pode garantir que a experiência metafísica de uma pessoa seja transmitida a outra de modo a que venha a repetir nesta as mesmas sensações transcendentais.

Do ponto de vista das religiões, é preciso destacar duas características essenciais: a primeira, que Deus delega aos seres humanos o livre-arbítrio, resultando que a busca do paraíso é personalíssima, portanto, anulando qualquer iniciativa no sentido da construção de uma teocracia. Deus não levará ao céu nenhuma espécie de coletividade humana (família, comunidade ou nação), mas sim cada um de seus filhos, segundo os critérios vislumbrados pelos crentes de cada religião (boas obras, ou a fé, por exemplo). Em seguida, jamais alguma religião defendeu o estado de necessidade e miséria; pelo contrário, sempre as religiões declaram que a observância aos seus preceitos conduzirá seus fiéis à abundância e plenitude de gozos.

Conseqüentemente, a ninguém pode ser dado o direito de preestabelecer um padrão de um bem de consumo, e acusar de pecado, imoralidade ou crime aquele que ousar a inovação. Não se pode medir o nível de espiritualidade ou de felicidade daquele que prefere uma rebuscada cadeira almofadada, com braços trabalhados e o brasão da família gravado no encosto a outra, simples e rústica. Pode-se apenas aferir que escolhendo desta forma esta pessoa encontra maior satisfação. Religião ou espiritualidade, cada um tem a sua, e que a siga e a professe como bem entender.

Portanto, aquele que costuma rotular os seus semelhantes de "materialistas", apenas incorre em uma atitude prepotente e ditatorial. No fundo, nenhum sentimento de espiritualidade lhe fornece o ânimo de assim agir, mas sim apenas o despeito e a inveja. A insegurança que provém do desconhecimento do exercício da liberdade dos outros lhes inspira a vontade de a todos controlar. Desrespeitando o livre-arbítrio dos conterrâneos, abandona qualquer noção de religiosidade, bem como ofende os direitos alheios meramente terrenos de escolherem o que de melhor lhes aprouver.

Nas sociedades socialistas, sempre aconteceu de meia dúzia de burocratas que se acham entendidos determinarem o que todos os demais membros de uma população devem consumir, seja a quantidade ou o modelo de determinado bem de consumo. Não por outras razões que as aqui explicitadas, jamais lograram atingir a felicidade (objetiva) dos consumidores, seja por produzir bens insatisfatórios do ponto de vista da qualidade, seja por sequer produzi-los em quantidade suficiente.

Justamente por esta incapacidade de produzir, é que os detratores da sociedade de livre-iniciativa procuram desclassificá-la, por acusar seus cidadãos de materialistas, em flagrante contradição com os princípios da sua própria ideologia, que sempre se posicionou de forma hostil às religiões, tendo mesmo afirmado serem "o ópio do povo".

Será que nós, os brasileiros, queremos um sistema que preveja dogmas religiosos de observância obrigatória? Será que pretendemos trocar o sistema econômico no qual vivemos, e pelo qual as pessoas são livres para escolher o que produzir e o que consumir, por outro em que sabichões mensaleiros e sanguessugas vão determinar o que podemos ter, e que não poderemos nem reclamar, sob pena de sermos acusados de "materialistas"? Ora, prezado leitor, se você também não concorda com isto, mande esta gente reclamar ao bispo, ou se internar num mosteiro!


Nota do Editor: Klauber Cristofen Pires é Bacharel em Ciências Náuticas no Centro de Instrução Almirante Braz de Aguiar, em Belém, PA. Técnico da Receita Federal com cursos na área de planejamento, gestão pública e de licitações e contratos administrativos. Dedicado ao estudo autoditada da doutrina do liberalismo, especialmente o liberalismo austríaco. Possui artigos publicados no Mídia Sem Máscara, Diego Casagrande, Domínio Feminino, O Estatual e Instituto Liberdade. Em 2006, foi condecorado como "Colaborador Emérito do Exército", pelo Comando Militar da Amazônia.

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