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Crônicas
21/03/2004 - 10h21
Reflexões aos cinqüenta
Douglas Mondo
 

Quando era criança, olhava para o ano 2.000 e pensava: Meu Deus, quarenta e seis anos, serei um velho!

Quando era garoto, olhava um senhor com cinqüenta anos e pensava: Nossa, que idoso!

Meu único irmão morreu há dez anos, meu pai há sete, minha mãe e minha sogra estão internadas, tiveram derrame, e eu com cinqüenta anos sinto-me cansado, às vezes, mas não velho!

Meus filhos estão com suas avós doentes e hospitalizadas, sou a pilastra, não estou velho nem tenho direito de estar cansado e deixar de sonhar.

Ainda guardo o sonho juvenil de que há salvação para a humanidade. Ainda sonho com um mundo sem fome, com igualdade social e felicidade geral.

Ainda sonho com o fim da mediocridade, com o fim da hipocrisia, sonho com o amor beijando os corações solidários e um mundo rodeado de poesia.

Aos cinqüenta fortaleço-me idealista e ouso brigar com a ignorância de todo dia. Não bato continência nem puxo o saco, sei do valor da cidadania!

Nós, caros cidadãos, somos os patrões da valentia, somos o salário mensal da garantia. O direito nos pertence, a obrigação é a contrapartida de todo dia!

Quando era menino, ouvia dizer sobre o político: Rouba, mas faz!

Quando era jovem, ouvia dizer da sabedoria popular: Religião, política e futebol não se discutem!

Aos cinqüenta sei que religião virou negócio, política virou safadeza e futebol roubalheira. Ah, se todos tivessem discutido um pouquinho na hora do jantar e a novela começasse mais tarde que a hora vulgar.

Ah, se o político safado e o cartola ladrão fossem presos, para variar!

Aos cinqüenta sei que nada mudará se não continuarmos agindo, pois a malandragem determina a política sobre o pão nosso de cada dia.

O papel estabelecido e a estrela dourada sobre o ombro destemido, fazem da nossa vida um inferno nas mãos de jovens bandidos. Nos falta a garantia de uma vida tranqüila e sadia!

Pelo imposto pago nos é dado muito pouco, desejamos felicidade ainda que tardia!

Quando era adolescente, ousava discutir com o adulto pela pureza das idéias e não aceitava a passividade de que o mundo era assim mesmo, de que sempre existiriam ricos e pobres.

Ensinaram-me a buscar riqueza e importância, o respeito de todos, um doutor acima da fome e da miséria.

Quanta pobreza nessas propagadas idéias!

Aos cinqüenta sei da responsabilidade da existência, da minha, da família, do povo.

Aos cinqüenta sei que sou parte do todo. Único na individualidade e parte geral da totalidade.

Aos cinqüenta sei da fragilidade e da minha insignificância, sei da perda de memória da história e da pouca valorização enquanto defensor de uma melhor qualidade de vida para todos.

Aos cinqüenta sei que estou malhando em ferro frio, sonhando que poderei dar forma e com o compasso e o esquadro lutar por liberdade, igualdade e fraternidade, como meus irmãos me reconheceram um dia.

Quando era criança, tinha a vida toda para viver, hoje olho para o futuro e digo: A pena é minha arma, com ela ainda ouso a ignorância combater!

À frente um homem com setenta anos em plena alegria: Meu Deus, um jovem, olha quanta sabedoria!


Nota do Editor: Douglas Mondo é advogado, escritor e presidente da Tv Japi Mais.
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