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À semelhança de um automóvel, lotes são negociados como qualquer outra mercadoria. Há lotes caros, baratos, bem situados ou não, em bairros "da moda" ou periféricos, com ou sem "acessórios" (ruas pavimentadas, rede de esgoto etc.). No entanto, a principal característica dos lotes urbanos é o aspecto de deserto. Busquemos "lote" em nossa memória visual e rapidamente encontramos uma área retangular, com 300 m² ou até menos, completamente desprovida de qualquer vida, isto é, na maioria das vezes cercada por muros sujos, ocupada apenas por uma incipiente vegetação rasteira, vulgarmente conhecida como matagal e freqüentemente utilizada como depósito informal de lixo. Seria um contra-senso falar em meio ambiente urbano, tendo em vista a condição da maioria das cidades médias e grandes. Algumas são completamente desprovidas de vegetação, como acontece em muitos bairros da cidade de São Paulo. Essa situação se agrava em áreas comerciais, onde árvores barrariam os letreiros, anúncios e luminosos das lojas, e é proporcional ao nível sócio-econômico da região (bairros periféricos são menos piedosos com a vegetação local). Em 1997, comerciantes do centro do conhecido bairro do Capivari, em Campos do Jordão, decidiram cortar os antigos plátanos porque estes escondiam as lojas e suas placas. Em Ilhabela, exemplos parecidos de uma desertificação capitalista podem ser encontrados nos centros comerciais da Barra Velha e do Perequê. No entanto, o contra-senso nasce em outro contra-senso, mais antigo: um dos símbolos da posse de um lote (isto é, de que existe um proprietário) é o fato de ter sido feita uma devastação desmedida de toda vegetação existente. Em outras palavras, a principal marca da posse de um lugar é a eliminação dos recursos naturais ali presentes. Mais do que se justificar por uma lei simples da Física (dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço), um dos símbolos da presença humana é, invariavelmente, a ausência de elementos naturais. Ou seja, tudo que não parece natural é humano - isto, quando falamos de alterar ambientes ou ocupar espaços, é uma triste verdade. Neste sentido, o lote pode ser visto como um dos pontos de máximo deste processo de degradação ambiental. Este processo é longo. Primeiro um homem se declara dono de uma vasta área. Através de mecanismos legais a posse é efetivada, e então a área é convertida em valores (metros quadrados e reais, ou dólares). Depois, a área é esmiuçada numa escritura, supostamente detalhada nos seus pormenores e o lugar é convertido em texto e em dinheiro. Embora sejam feitas algumas avaliações ligadas à paisagem que se avista do lote ou dos recursos naturais nele presentes (porque tais elementos o valorizam), traduziu-se algo real (um lugar, com história e vida) para algo abstrato (valores numéricos, mortos e sintéticos) e isto é o prelúdio de uma série de crimes ambientais. Há diversos lugares que não nos pertencem mas que, se fossem apropriados, certamente nos fariam falta. Pode ser uma praia, um parque, uma praça que só vemos de passagem ou uma montanha. E no entanto somos humanos, habitamos casas ou apartamentos e não dependemos diretamente de árvores ou arbustos para encontrar abrigo e alimento. Que dizer dos seres que de fato dependem?
Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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