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Opinião
04/07/2004 - 11h02
O ideal americano
Marco Antônio Becker
 

Soldados americanos, após pactuarem acordos de paz com as tribos indígenas, atacavam-nas de surpresa com rifles contra arcos, flechas e tacapes, aniquilando homens, mulheres e crianças. Queimavam e destruíam tudo. Ao voltarem para o Forte Apache eram ovacionados como heróis. A gurizada torcia pelos "mocinhos-soldados", vibrava, assobiava e esperava ansiosa pelo lançamento na cidade de outro filme de faroeste.

A cultura indígena foi varrida do solo americano. Em seu lugar, para alívio de consciência dos invasores brancos, algumas reservas foram concedidas aos descendentes daqueles povos, que exploram, isentos de impostos e imunes às leis dos caras-pálidas, jogos de azar, cassinos e prostituição.

Vieram a primeira e a segunda Guerra Mundial, a ONU, a Guerra fria, a Guerra do Vietnã e a queda do comunismo. Os tanques substituíram os cavalos, armas automáticas e mísseis, os antigos rifles.

Os Estados Unidos e as grandes potências possuem bombas atômicas, químicas e biológicas. Os povos subalternos estão proibidos de tê-las. Devem continuar com os arcos e flechas, para oferecer menos resistência e mais facilmente serem subjugados. Têm os Estados Unidos moral para proibir bombas atômicas quando foram os primeiros a usá-las num Japão que já estava de joelhos?

A ONU foi enaltecida enquanto dava aval às atrocidades dos EUA pelo mundo afora. Bastou contrariar a invasão do Iraque e já foi classificada pelo Tio Sam de "imprestável".

A deposição de ditadores e tiranos serve de pretexto para suas ingerências e invasões. Faltou dizer "tiranos contrários aos nossos interesses". Quando a seu favor, são defendidos com unhas e dentes, basta ver os regimes do Kuwait, Arábia Saudita e Emirados Árabes, sem falar das ditaduras sanguinárias das décadas de 60 e 70 da América do Sul e Central, patrocinadas e mantidas por Washington.

No faroeste, a destruição dos povos indígenas era motivada pela posse de terras e ouro. No Iraque, pelo petróleo abundante.

Mas algo mudou. A gurizada já não mais aplaude o soldado invasor. O mundo inteiro se manifesta contrário às guerras de ocupação. Contudo, este modo de agir americano, no começo e agora, continua inabalável, fulcrado no desrespeito à autodeterminação dos povos e no império da lei do mais forte. Felizmente, esse novo ideal não é compartilhado pela maioria do povo. E jamais seria referendado pelos pais da pátria americana.


Nota do Editor: Marco Antônio Becker é médico oftalmologista, presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul e 2º vice-presidente do Conselho Federal de Medicina.

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