| | | Vanessa Haddad |  | | | | Programa de Aprimoramento Continuado (PAC) com videoconferência em Telemedicina. |
|
O paciente chega ao posto de saúde com um problema dermatológico. O médico que o atende formula uma hipótese de tratamento, mas não é especialista no assunto. O que fazer? Uma solução tradicional seria encaminhar a pessoa a um hospital especializado. A alternativa hoje existente é bem mais simples: o Cyberambulatório, uma consulta por Internet, em que o médico envia os dados a um colega especialista e recebe deste uma segunda opinião. O paciente não precisa se deslocar a outro local e, alguns dias depois, volta ao mesmo posto, próximo a sua casa, para ser medicado. O Cyberambulatório, em funcionamento desde 2001, foi desenvolvido pela disciplina de Telemedicina da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). O sistema permite o acesso a profissionais de centros de referência, como o Hospital das Clínicas (HC) da FMUSP. O funcionamento é simples. Com a concordância do paciente, as informações sobre seu problema são enviadas. Ao remeter os dados, o médico pode anexar fotos e vídeos. O especialista, posteriormente, avaliará o caso e confirmará ou não o tratamento, além de eventualmente fornecer outras orientações. Para a pessoa que está doente, isso significa melhora no atendimento. Quanto ao médico do posto, tem a possibilidade de aprimorar seus conhecimentos. O sistema permite acesso a referências bibliográficas, e os casos podem ser debatidos por meio de chats (on-line) ou listas de discussão (off line), que ficam arquivados para consultas posteriores. "Para o médico ou residente, é um aprendizado baseado na prática clínica", explica o coordenador da disciplina de Telemedicina da FMUSP, professor Chao Lung Wen. "Os médicos do serviço público costumam reclamar que ganham pouco e não aprendem nada em seu trabalho. O Cyberambulatório pode estimular sua dedicação, porque terão condições de aprender muita coisa". Com isso, cria-se também uma rede de teletriagem - o paciente recebe um primeiro atendimento adequado e somente é encaminhado para outro serviço médico se houver necessidade. O professor avalia que o sistema permitiria chegar à situação em que 60% dos casos fossem atendidos nos próprios postos de saúde. Estação Digital Médica - O Cyberambulatório é apenas uma das ferramentas utilizadas pela disciplina de Telemedicina, que está revolucionando a formação dos médicos e a prestação dos serviços de saúde na rede pública. De forma mais ampla, a FMUSP trabalha com o conceito de Estação Digital Médica, uma rede de comunicação formada por hospitais, universidades e outras instituições, que tem como objetivo difundir educação e assistência médica. A rede foi iniciada em junho de 2003, e ainda é relativamente pequena, mas sua expansão é possível, a baixo custo. A comunicação é feita tanto por meio de tecnologias de ponta, como videoconferência (via satélite, telefonia fixa digital ou fibra óptica), quanto por meios mais baratos, como Internet. Nesta segunda-feira (5), será inaugurado o segundo Centro de Tecnologia Integrada em Telemedicina (Cetec), no Instituto Central do HC. A nova unidade estará interligada por fibra óptica ao primeiro Cetec, instalado desde 2002 na FMUSP. Ambos têm modernos equipamentos para videoconferência, que permitem a transmissão para outros pontos do País. Assim, os médicos e profissionais de saúde do complexo HC podem desenvolver ações de teleducação e teleassistência (cursos de capacitação e educação continuada, interconsultas médicas, transmissão de cirurgias, discussão de casos clínicos, entre outras). Estão ligadas ao Cetec algumas unidades do HC, como o Instituto de Ortopedia e a Divisão de Medicina e Reabilitação. Os próximos institutos a serem conectados são o de Psiquiatria e o da Criança. Há conexão também com toda a rede USP Net, que inclui o Hospital Universitário. Além dessas ligações permanentes, existe a possibilidade de conexões com cerca de outros 20 pontos, em várias cidades do País. O próximo passo será unir as redes do HC e da USP ao Intragov, a infra-estrutura única de comunicação em fase de implantação pelo governo do Estado, que poderá ser compartilhada por diferentes órgãos públicos. A partir dessa ligação, os hospitais estariam conectados ao Corpo de Bombeiros, às delegacias e ao setor de Educação, por exemplo. "O que queremos é a conexão das redes já existentes, verificando quais são os pontos que podemos unir", afirma o professor Chao. De acordo com ele, os gastos serão muito baixos, já que não há necessidade de se investir em banda de comunicação. O coordenador da disciplina destaca a importância da interligação com escolas, para que os professores possam ser treinados sobre como orientar a prevenção de doenças: "Os educadores são respeitados pelos alunos. Se uma criança ou adolescente chega em casa com determinada orientação e diz: ’Foi o meu professor quem falou’, isso influencia os pais". Dessa forma, as campanhas preventivas poderão encontrar um público mais receptivo e preparado para absorver as informações. Por dentro do corpo humano Na tela do computador, a imagem de um corpo humano que caminha vai se modificando e mostra músculos e ossos, com suas articulações e junções. Em outra tela, há a representação do rosto de um adolescente com acne. A imagem se aproxima, como se entrasse pela pele, e uma animação revela, detalhadamente, a formação desse processo inflamatório. Esse é o Projeto Homem Virtual, outro recurso desenvolvido pela disciplina de Telemedicina da FMUSP. O produto, cujos módulos são distribuídos em CD-ROM, consiste em modelos criados por computação gráfica, em terceira dimensão e com movimentos. Essas figuras representam o ser humano de forma completa. Os recursos permitem a visualização da anatomia e da fisiologia do organismo. São reproduzidas com exatidão as texturas e a disposição dos órgãos, músculos, tecidos e artérias. É possível, também, a demonstração de patologias e procedimentos clínicos ou cirúrgicos. Cada módulo é desenvolvido em conjunto com médicos ou profissionais de saúde especialistas no tema trabalhado. "Modelamos o corpo humano a partir de livros de anatomia, esqueletos, fotos, vídeos, e com base na orientação dos médicos", explica o designer gráfico Gustavo Zagatto, coordenador da equipe que executa o projeto. "No caso do homem que caminha, por exemplo, o fisiatra indicou quais são os ângulos corretos, se é necessário dobrar menos o joelho etc.". Para expressar de forma fiel a postura, Zagatto filmou a si próprio e depois reproduziu, graficamente, os movimentos. A Fisiatria dispõe também de sensores que podem ser colocados no corpo de uma pessoa para captar e transmitir ao programa de computador os movimentos que são realizados. Valor social - "Não existem atlas de anatomia com essa precisão", afirma o professor Chao. Ele garante que se trata de produto único, no Brasil e no mundo. A grande diferença em relação a outras representações é que, nesse caso, a parte bioquímica é apresentada em detalhes. A origem do projeto foi o trabalho nos Núcleos de Reabilitação de Deficientes Físicos a Distância, em 2000. Havia grande dificuldade em explicar ao paciente que tivera a perna amputada, por exemplo, como ele passaria a andar com a prótese e que músculos precisaria fortalecer. A representação em tela de computador resolveu isso. Daí nasceu o Homem Virtual, que é hoje marca registrada da FMUSP. A utilização do produto é ampla. No caso de estudantes de Medicina, proporciona a compreensão de procedimentos que levariam horas para serem absorvidos por meio de leituras ou de explicação oral. Para professores do ensino médio, é excelente meio de passar informações aos adolescentes. E até mesmo pacientes comuns podem compreender melhor o problema que os atinge. Pessoas analfabetas, que têm dificuldade em entender explicações técnicas, visualizam na tela o que ocorre no interior do corpo humano. "O projeto tem um valor social imenso", afirma o Dr Chao. Haydnei Oliveira, que trabalhou em agências de publicidade e está na equipe do Homem Virtual há três meses, explica: "É diferente do foco publicitário, em que não há tanto o compromisso com a realidade. Aqui, os médicos orientam para que tudo saia como na realidade. Cada veia, cada concavidade deve ser igual ao que existe no corpo humano". Para a produção dos CR-ROM, foram estabelecidos convênios e parcerias com hospitais particulares. A disciplina de Telemedicina possibilita que faculdades de Medicina utilizem o Homem Virtual, por meio de licenças institucionais e termos de cooperação acadêmica e científica. Dessa forma, a ferramenta fica disponível aos docentes e pode ser vendida aos alunos, com a instituição de ensino ficando com 60% do lucro. Três faculdades de Medicina já participam desse processo. Até agora, foram editados entre 6 mil e 6,5 mil CDs, somando-se os diversos temas. Mas os objetivos são ambiciosos: nos próximos três anos, pretende-se chegar à marca de 300 mil unidades produzidas e distribuídas. Cybertutor aprimora conhecimentos de estudantes e profissionais O Cybertutor é um sistema baseado na Internet para a teleducação em saúde. Pode ser usado para o aprendizado de estudantes de Medicina, treinamento de residentes, educação médica continuada ou para a capacitação de agentes promotores de saúde. É um modelo interativo, que permite a verificação do aprendizado tanto por parte do próprio aluno quanto pelos docentes responsáveis. Uma das vantagens é que o aluno pode estudar em casa ou nos horários livres. Para isso, basta acessar a Internet. Após a leitura do texto, o aluno responde questões específicas sobre o tópico estudado. O tutor eletrônico retorna comentários previamente preparados, de acordo com a resposta fornecida. No caso de erro, indica quais tópicos devem ser analisados novamente. O número de vezes que cada aluno necessitou para passar nas avaliações de reforço fica armazenado. Os professores têm acesso a relatórios, a fim de adequarem suas aulas às dificuldades mais freqüentes. Após percorrer todos os tópicos do curso e responder às perguntas de reforço, o aluno passa por uma avaliação para medir os conhecimentos gerais. Em outro módulo do Cybertutor, o aluno é levado a tomar decisões a partir da simulação de casos clínicos. Os comentários em relação ao raciocínio elaborado ficam disponíveis somente ao fim da avaliação do caso. O desenvolvimento do Cybertutor foi da própria disciplina de Telemedicina. A equipe de criação dispõe de quatro analistas de sistemas e três pessoas que operam a inserção de cursos. Há também três estrategistas educacionais e uma estrategista de comunicação, necessários para adequar o conteúdo - fornecido pelo corpo médico do HC - ao público-alvo definido. Telemedicina tem história recente A disciplina de Telemedicina, que existe na USP desde 1998, é ministrada em nível de graduação e de pós-graduação. Seus projetos são desenvolvido em parceria com empresas, por intermédio da Fundação Faculdade de Medicina. Com isso, são obtidos recursos que permitem o pagamento de salários aos partricipantes no projeto. Além do Cyberambulatório, do Homem Virtual e do Cybertutor, outra ação da disciplina é o Programa de Aprimoramento Continuado (PAC), que possibilita a qualificação profissional em temas específicos relacionados à saúde. Os cursos podem ser ministrados por videoconferência, o que evita o deslocamento de profissionais para regiões distantes. As aulas são multicêntricas, ou seja, ocorrem ao mesmo tempo em faculdades, sociedades de especialistas e outras instituições. "A Telemedicina está apenas começando", afirma o coordenador da disciplina, professor Chao Lung Wen. "Desde que passou a ser oferecida na USP, temos estimulado o surgimento em outros pontos do país." Além da USP, destacam-se o setor de Teleodontologia da Universidade Sagrado Coração (USC), em Bauru, e o Núcleo de Educação a Distância da Unesp.
|