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Quase nada foge ao controle do Estado. As leis são criadas pelo Poder Legislativo, gerenciadas pelo Executivo e fiscalizadas pelo Judiciário. Mesmo longe da trindade estatal, tudo sofre influência do poder público. Eu, como arquiteto, pago impostos à prefeitura desta cidade. Parte desse valor é repassado aos meus clientes em cada projeto que realizo. O preço final de um projeto é composto pelo meu trabalho, pelos custos do trabalho e pelos impostos sobre o serviço. Como tantos outros trabalhadores autônomos, pago para trabalhar e para sustentar o Estado. Cerca de 1/3 de toda riqueza produzida neste país vai parar nas mãos do Estado. Claro que todo imposto possui uma contrapartida. Os impostos são usados para benfeitorias públicas, para ações assistenciais, para melhorar a vida daqueles que não têm condições sequer de se sustentar. Ao menos é isso que a Constituição determina. A coisa fica mais complicada quando nos deparamos com alguns fatos importantes e comuns. O Poder Legislativo determina o próprio salário e o momento em que eles serão reajustados - dinheiro abundante e garantido por lei. O Poder Executivo escolhe como vai usar o dinheiro dos impostos. Mesmo com a Lei de Responsabilidade Fiscal, ainda há aberrações como o desvio de dinheiro de merenda escolar e as fraudes no sistema de previdência em várias cidades brasileiras - sem falar na péssima qualidade dos serviços públicos. Ao Poder Judiciário cabe julgar as irregularidades dos outros dois Poderes, mas ainda é bastante obscuro o mecanismo através do qual as irregularidades do próprio Judiciário são reveladas e punidas. Os livros - de Aristóteles às cartilhas de OSPB - serão unânimes ao afirmar que não se faz política sem ética. A ética política significa fazer da política um meio para que as coisas funcionem adequadamente, não um fim em si mesma ou um meio para obtenção de poder e bens pessoais. Quando vejo a imunidade parlamentar, a concessão de foros especiais para políticos e a forma como essas pessoas chegaram ao poder, concluo que a política é um sonho dourado de muitos direitos, poucas responsabilidades e nenhuma ética. Meu dinheiro sustenta ruas asfaltadas e merendas escolares, é verdade, mas também sustenta o apartamento de cobertura do juiz corrupto, o carro do ano do parlamentar ladrão e até mesmo os cafezinhos do Palácio da Alvorada. Seria justo eu escolher como meu dinheiro será usado, mas novamente esbarro nas restrições constitucionais: eu só posso dizer isso através do voto. Mas o meu voto não diz, como eu gostaria que dissesse, "Coloque meu dinheiro em projetos de preservação ambiental", por exemplo. O voto é uma mensagem anônima que diz apenas "Confio em você". Por ser anônima e breve, muitos políticos se sentem plenos de direitos e isentos de responsabilidades. É um círculo vicioso de hipocrisia (eu acredito que estou escolhendo e os políticos fingem que estão me representando), ignorância (porque todos aceitamos esse estado de coisas, mesmo os que o percebemos) e egoísmo (porque não são poucos os que gostariam de pegar uma fatia desse bolo, seja através de eleições ou de concursos públicos). Hipocrisia, ignorância e egoísmo são vícios humanos, não desvios típicos de alguns políticos. Podem ser eliminados com sabedoria, que pode ser obtida através do estudo e de uma sólida constituição moral. Quando falo de estudo não me refiro ao que é oferecido nas escolas, que formam eleitores em vez de pessoas. Eleitores reproduzirão continuamente a democracia bestial que cristalizou a sociedade. Quando falo de constituição moral, também não me refiro às aulas de Religião e às lindas e inocentes tentativas de construir o cidadão (um outro nome para eleitor). Refiro-me ao exercício pleno da religiosidade (cristã, budista, sufista, taoísta, islâmica, qualquer que seja) e ao desenvolvimento da consciência individual (a consciência filosófica de reconhecer e de mostrar a realidade, não o cruel desejo de recriá-la a qualquer custo e a bel-prazer). Uma pessoa que visse sobre si a sombra de Jesus, que tivesse a mínima noção dos ensinamentos de Sócrates, Spinoza e Confúcio, que aprendesse desde cedo a mensagem de Buda e de Lao Tsé, que estudasse e praticasse o que ensinam os grandes mestres, jamais esta pessoa seria capaz de roubar dinheiro público, jamais esta pessoa seria capaz de ajoelhar-se diante do poder público. Se o atual estado de coisas é um sonho para todo político, a sabedoria é a luz acesa que os faz acordar assustados.
Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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