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Hesitei um pouco! Já havia passado outras vezes por aquilo, mas agora era diferente, não ia sair derrotada. Minha auto-estima não ia ser abalada, trabalhei muito nesse sentido. Respirei fundo, coragem! Vai dar tudo certo. Lembre-se: você agora é outra pessoa, segura de si e do que quer para você. Nos meus braços, cores se misturam e texturas diferentes me afagam. Fui otimista, confesso. Aquelas cores vibrantes! Realmente, eu estava cheia de coragem. Alguém na porta me aguardava com olhar cheio de ternura, torcendo pelo meu sucesso. Entrei. Logo de cara, uma gorda me recebeu com ar carrancudo. A cada peça que despia, aquela mulher corava e sua carranca era pior ainda. "Oh! Não! Aquela mulher sou eu! Que viagem! Tudo bem, não vou tomar muito seu tempo". Peguei a primeira peça, saia, o zíper não subia; vamos tentar a blusa. É, acho que o botão não fica assim arreganhado. E essa calça? Ah, que legal! Ta deslizando, mas o que é isso repartido desse jeito? É, acho que não vai dar... Quem sabe esse vestido tubinho? Esse serviu, mas qualquer gesto mais brusco corro o risco de ficar nua na rua."Deixe-me devolver essas roupas. Quem sabe cores mais sóbrias e número G vai dar certo". Não sei porquê, toda vez que devolvia uma peça para minha irmã eu tinha a impressão que aquele olhar terno era substituído por um sorrizinho de lado, tentando disfarçar seu divertimento. A propósito, minha irmã tem corpinho de Carolina Ferraz e eu, de Vera Gimenez de "Sai de Baixo", não é brincadeira. As roupas foram se amontoando nos braços frágeis de minha irmãzinha magrinha. Apelei para o preto, risca de giz e tudo o que se possa imaginar, cada vez era evidente meus pesinhos a mais. Teve hora que pensei ouvir minha irmã rindo baixinho e as moças da loja já se amontoando e murmurando. Como se eu estivesse ali tanto tempo! "Ai, que raiva! Pra que tanto espelho, frente, verso, corpo inteiro e parece que o espelho é de aumento, pois eu juro que aquela gorda não sou eu, ainda por cima fica olhando com esse olhar acusador... E agora, como vou sair daqui? Não posso sair de mãos vazias, vai ser o meu fim! Se eu comprar? Não, não é certo eu levar o que não me serve, mas e se eu fizer um regimezinho?! Quem sabe eu caibo nesse modelito básico dos básicos". O pior de tudo é que eu tenho que enfrentar a minha irmã! Dei a última olhada naquela que se dizia eu. Peitos caídos, um mais do que o outro, quem já amamentou sabe porque. Estrias, celulites, flacidez, parece propaganda de clínica de estética! Do antes e depois, só que eu só fico no antes. Poupança inexistente. Pronto, diagnosticado o problema. Resta ir para casa fazer terapia, academia e um regime severo. Me enchi de coragem, estufei o peito e saí sem remorsos por não ter comprado nada. Fiquei contente porque minha irmã não ficou de costas para mim, pois corria o risco de ser apedrejada. No caminho, fui bolando um jeito de abrir uma ação contra todos os provadores com direito a indenização. Cheguei cheia de coragem e marquei no calendário: "amanhã vai ser tudo diferente". Fui no meu armário, peguei uma caixinha azul cintilante cheia de letrinhas Bis, Bis, Bis. Devorei sem culpa. Amanhã é outro dia.
Nota do Editor: Suely Cabral é natural de Ubatuba e mora no bairro do Perequê-Mirim onde trabalha como manicure e cabeleireira.
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