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Opinião
13/07/2004 - 17h08
As motivações do voto
Ernesto F. Cardoso Jr.
 

Em recente artigo, Gaudêncio Torquato, jornalista e consultor político ("O Estado de São Paulo"), analisou quais deverão ser as motivações do voto nas próximas eleições. É muito oportuna esta análise, pois é comum ditarmos previsões sobre o voto futuro com base nas preferências e motivações havidas no passado, como se as decepções sofridas não tivessem o condão de modificar a visão política do eleitor. Além disto, o desenvolvimento dos próprios fatos políticos, econômicos e sociais, sugerem ao eleitor a inclusão de novos fatores e valores na sua avaliação de governos e candidatos. O impacto sobre o bem-estar pessoal e a frustração de expectativas em relação a governantes e representantes eleitos, inclina o eleitor, fortemente, a analisar os novos candidatos com mais critério, podendo alterar substancialmente o eixo de seu posicionamento.

Há de se considerar, em primeiro plano, o grau de profissionalismo atualmente empregado nas campanhas eleitorais, tendo como objetivo a manipulação da mente do eleitor e a indução de seu voto. Esse profissionalismo, geralmente exercido por "marketeiros" políticos é, em geral, pouco, ou nada ético. Os fins justificam os meios e desta forma tudo que ajudar o candidato a ganhar votos é passível de utilização. Cito, como exemplo emblemático desta técnica de criação de impressões e conceitos irreais e, portanto, não éticos, aquela imagem criada pelo Duda Mendonça de grupos, em torno de mesas de trabalho, elaborando um Plano de Governo que, hoje, constata-se nunca chegou a ser feito. Era, todavia, algo que o candidato em questão precisava para contrabalançar seu notório despreparo para o exercício da magistratura máxima do País, bem como, transmitir a impressão de que o esquema partidário que o apoiava poderia fornecer-lhe o suporte técnico que necessitava, o que, também, não se evidenciou.

Como salienta Torquato, através desse marketing eleitoral "esboçam-se perfis políticos, plasmam-se mitos, induzindo-se pensamentos, comportamentos e decisões, alimentando polêmicas, construindo, enfim, uma base de valores para formação da opinião pública nacional, atravessando espaços sociais e geográficos". Consciente disto, não deve o eleitor se deixar influenciar por material de propaganda, escrito ou falado, elaborado de forma a aprimorar a imagem do candidato além da realidade comum a todos nós mortais. Não existem milagreiros, nem milagres possíveis, mesmo quando se promete, enfaticamente, "mudar tudo isso que está aí". A realidade em que a sociedade hoje se situa em meio às intrincadas relações que delimitam a ação, é muito mais determinante do que qualquer intuitiva, ou apostólica "vontade política", a despeito, até, das qualidades ímpares que um candidato ofereça, ou de sua determinação e capacidade de ação.

Contrariamente a essa poderosa influência de marketing, há quem considere, em razão de pesquisas qualitativas havidas, que a percepção social sobre a realidade surpreende ao demonstrarem que a taxa de racionalidade se expande em todas as classes sociais. Se esta tendência vier a se firmar, poderíamos dizer que a própria longevidade da democracia e o seu exercício regular tendem, como antevê Torquato, a aumentar o grau de percepção das realidades e a produzir um maior desprendimento emocional do eleitor. O que isto pode estar a indicar, também, é que o eleitor começa a se tornar capaz de desnudar o candidato da roupagem atraente que o "marketeiro" lhe coloca e com a qual pretende transmudar o candidato.

Outra questão relevante é a recorrência da surrada temática das mudanças, tão repetida nas campanhas recentes, que significariam melhoria da vida nacional, do bem-estar individual e da felicidade da nação. Como nada mudou significativamente desde então, provavelmente só para pior, promessas de mudança tenderiam a perder sua força e poderiam, como bumerangue, voltar-se contra o fazedor de promessas. Torquato acha que nesta campanha "mudar" tornou-se um verbo roto que os eleitores jogarão na lata do lixo. Pessoalmente, tenho reservas a respeito, pois, para as comunidades municipais, objeto desta eleição, que sentem mais de perto as conseqüências das escolhas feitas, as promessas de mudança, se acompanhadas de forte credibilidade e no contexto de oligarquias que se tenham perpetuado demasiadamente no poder, podem, ainda, ser atraentes, especialmente se feitas com base em análises objetivas e propostas realistas.

Dada a experiência eleitoral recente, cujos efeitos o país vem sentindo de forma até traumática, após outro grande devaneio nacional, é de se esperar que a idoneidade do candidato, frente às exigências do cargo que pretenda assumir, venha a ser tema interessante a ser explorado. Capacidade administrativa e de liderança, educação formal e experiência, são qualidades essenciais que acompanhadas de projetos e propostas simples e perfeitamente exeqüíveis, especialmente referentes aos anseios básicos da população, devem produzir bom impacto sobre o eleitor.

O "rouba, mas faz", criação paulista que deitou escola, já não deverá ter a mesma adesão cínica do passado, a menos que entre os concorrentes não existam diferenças distintas de posturas éticas. Como já salientamos em outro artigo, tem-se tornado tão chocante e evidente o grau de corrupção ao nível dos governos municipais que a honestidade pessoal, a decência e a lisura reconhecida, ou praticada pelo candidato em sua história pessoal, serão apanágios que poderão elevar candidatos inicialmente menos cotados a escalar rapidamente o topo da preferência popular. O fato que nos parece inconteste é que tivesse a sociedade brasileira, atualmente, candidatos que somassem, visivelmente, competência e integridade pessoal e não haveria necessidade de tanto dinheiro, nem de elaborada estratégia para lhes assegurar a vitória. Uma das maiores decepções que o eleitorado brasileiro sofre, presentemente, é observar que de onde mais se esperava honestidade e competência brotaram, em borbulhões, falta de pudor, irresponsabilidade e incompetência, como os fatos estão a demonstrar. Honestidade, com competência, pois, deverá ser fator de grande poder de aglutinação do eleitorado, especialmente contra candidatos de histórica desfaçatez e falta de pudor no trato dos negócios públicos.

Há de se dar, por outro lado, menos lugar ao excessivo personalismo, tão comum em nossa vida política e mais espaço ao senso político prático, no sentido de reconhecer que se algo está indo bem, deve merecer continuidade. Este personalismo de querer colocar em tudo a marca pessoal vem custando à sociedade imensos recursos desbaratados e altíssimo custo de improvisação. Prometer continuar o que está indo bem, mostrando intenção de aprimorar ainda mais, deve calar bem no pensamento do eleitor.

Longe de pensar ter esgotado este assunto (se possível retornaremos a ele), suscito-o, exatamente, para que o eleitor ponha a funcionar sua capacidade de análise, seu controle emocional e afetivo, exercite o desprendimento com vistas ao bem-estar coletivo, enfim, busque conhecer profundamente o candidato antes de preferi-lo. Precisamos todos, como sociedade, perdermo-nos menos com o arrependimento e edificarmo-nos mais com a razão.

Lembre-se, o eleitor, que o voto não deve ser considerado uma arma, mas, um poderoso instrumento cirúrgico. Em si é inerte, mas, utilizado com critério e plena consciência pode produzir importantes modificações no corpo da nação.

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