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Ilhabela é a cidade brasileira que possui a maior área de Mata Atlântica, diz o Atlas divulgado recentemente pelo INPE e pelo SOS Mata Atlântica. Para quem se apressou em estourar o champanhe, vale a pena observar o levantamento com mais atenção e perceber que não há nada para ser comemorado. As razões para isso são muito simples. Primeiro, parte da Ilha de São Sebastião é área de preservação permanente, condição instituída pelo decreto que criou o Parque Estadual de Ilhabela. Isto pressupõe a presença constante de órgãos estaduais que fiscalizam essa reserva natural. Segundo, a dificuldade de acesso às áreas de floresta dificulta o desmatamento - processo bastante acelerado em muitas cidades do litoral paulista. Terceiro, a abundância natural de Mata Atlântica. Estes três fatores não têm qualquer relação com a cidade de Ilhabela, onde a preservação não tem sido prioridade para o poder público e o setor imobiliário permanece em constante expansão. Não há uma razão local que explique o êxito de Ilhabela, apenas fatalidades típicas de quem foi agraciado pela natureza. Quem conhece a sociedade de Ilhabela reconhece que o modo de vida do caiçara praticamente se extinguiu e que a maioria da população não possui qualquer vínculo afetivo com o município. Os dados do Atlas foram colhidos entre os anos de 1995 e 2000, não durante a atual gestão municipal. A importância social e política do êxito ilhabelense é, portanto, nula. E se existe algum mérito nessa preservação, ele se deve muito mais à bênção da natureza do que a políticas e ações em benefício do meio ambiente. A simples divulgação de manchetes, sem o cuidado da avaliação das informações verdadeiras, pode causar o efeito inverso sobre a população, acostumada a preservar apenas o que já está preservado e a desmatar lugares em que a legislação e o bom senso não se impuseram. Uma das contrapartidas da abundância de mata nativa nos limites previstos por lei é o desmatamento intenso fora deles. Enquanto o esgoto das praias não retornar pelo ralo, a cidade continuará crescendo e produzindo dejetos. É questão de tempo até que todos os lotes urbanos estejam desmatados e ocupados com construções. Parece natural que Ilhabela siga o mesmo rumo da maioria das cidades brasileiras. Nos últimos 20 anos, a população cresceu muito mais do que sua infra-estrutura urbana. Com raras e preciosas exceções, o ambientalismo praticado em Ilhabela é tão eficiente quanto a poesia bucólica: resume-se a suspirar pela natureza abundante que se oferece pelas janelas das casas de veraneio e a chorar pelo que é destruído. Tudo indica que os próximos 20 anos serão iguais, embora saibamos que a degradação ambiental é sempre acompanhada de miséria social. Ainda que o Atlas da Mata Atlântica possa oferecer uma mensagem positiva para Ilhabela, o contraste que existe entre a cidade e a floresta serve como alerta para que muito seja feito - não onde a floresta ainda é soberana, mas onde ela só existe como lembrança.
Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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