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Opinião
15/07/2004 - 09h04
O quinto poder
Christian Rocha
 

A principal vantagem do poder é a permissão para errar. Estar no topo de uma escala de poder significa estar no topo de uma escala de impunidade: quanto mais poder uma pessoa tem, mais fácil é para ela se esquivar da responsabilidade pelo erro. A regra vale para todos os ambientes - político, jornalístico, militar, social, econômico - e nada mais é do que a tradução de um adágio muito popular: "quem pode mais chora menos".

A contrapartida dessa regra diabólica é o fato de que ela empurra os fracos não à busca pelo poder, mas à invenção de um poder novo. Foi mais ou menos sob essa lógica que nasceu a Imprensa, que já deu provas de que pode construir líderes, arruinar Estados, levar empresas à falência, ainda que tenha que respeitar as mesmas leis a que os mortais se submetem. Não à toa a Imprensa é considerada o quarto poder, em muitos casos, acima dos outros três poderes.

Quando falo de Imprensa, refiro-me à mídia de um modo geral, àquela mídia não-oficial (embora às vezes oficiosa) e não-estatal (embora às vezes alimentada com subvenções estatais). A formalização desse desvinculo é o que permite à Imprensa a liberdade que lhe é inerente, ao mesmo tempo em que lhe exime da responsabilidade sobre aquilo que comunica. Esta - eis o ponto em que pretendia chegar - é uma situação abominável: enganam-se aqueles que crêem que a Imprensa pode fazer algo por este país, pois é justamente a ausência dessa responsabilidade que lhe permite atuar como tal, como um poder que transcende os demais. Mais do que isso: a liberdade absoluta traz em si a tirania absoluta, pois toda liberdade é definida pela permissividade de se realizar aquilo que se quer, independentemente da opinião alheia.

Provas disso não faltam. Atualmente, qual rede de TV poderia ser elogiada pelos serviços que presta à população? O que explica o vazio televisivo e a prostituição da Imprensa senão a total falta de responsabilidade sobre o desenvolvimento intelectual dos brasileiros? Mesmo a revelação de fraudes oficiais não implica uma moralidade em si; ela apenas oculta a lógica dos furos: um furo tem menos valor pelas suas conseqüências sociais do que por sua definição jornalística, que dá notoriedade ao profissional que o escavou e ao jornal ou revista que o publicou. A corrupção é a mola-mestra do jornalismo político brasileiro.

Na base dessa pirâmide de poder e exclusão está o cidadão comum. Alheio a essa dinâmica, intimidado por discursos lindamente complexos ou amedrontado pelas possíveis conseqüências de suas dúvidas, este cidadão limita-se a sobreviver, de preferência longe dos quatro poderes. Entre o confronto arriscado com aqueles que detêm o poder e a vida pacata de um assalariado, poucos têm dúvida sobre o que preferir. A maioria, no entanto, esquece que há outras opções.

Assim como a Imprensa tornou-se uma alternativa aos três poderes - muitos hoje recorrem à mídia para resolver seus problemas -, a inteligência e a imaginação podem levar o homem comum não à igualdade na luta pelo poder, mas à transcendência do poder mesmo. Afinal, para que serve este poder senão à manutenção do poder-em-si, à obtenção de alguns níqueis e à anulação de todos aqueles que não o detêm? A ética no gerenciamento do poder significa oferecer meios - cultura e sabedoria - àqueles que não o tem, de modo a que cada um possa desenvolver a sua alternativa pessoal ao poder que invariavelmente o limita. Não se trata de desafiar uma estrutura que já existe - toda iconoclastia é ingênua e deslocada e, levada a sério, conduz ao caos. Trata-se apenas de aprender a viver apesar dessa estrutura.

Este "quinto poder" é justamente essa consciência que deveria nortear a vida do homem comum: de um lado, uma certa desesperança em relação àqueles que detém o poder, pelas razões aqui expostas; de outro, a firme decisão de aprimorar-se e oferecer o melhor de si a uma sociedade. Não seria essa uma ética para os dias de hoje? Não é essa a origem comum de todos os sábios e grandes mestres?


Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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