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Começam a surgir na cidade os primeiros sinais de que teremos eleições. Carros circulando com adesivos de candidatos e casas pintadas com as cores das coligações dão colorido à cidade, prenunciando o momento maior da democracia. Em 1982 o país viveu uma eleição da maior importância, ARENA e MDB disputavam cadeiras no senado e na câmara e governadores eram eleitos em todo o Brasil. Foi uma eleição com caráter de plebiscito, o povo estava cansado do regime de exceção e queria mudanças. A cobertura do pleito feita pela Rede Globo foi centralizada em São Paulo, felizmente eu estava lá e posso contar como aconteceu. Nós tínhamos preparado duas maquetes, uma da câmara e outra do senado, elas seriam preenchidas com bandeiras azuis e vermelhas à medida que as apurações avançassem. Bandeiras azuis para a ARENA e vermelhas para o MDB, uma em cada cadeira. Na verdade não era a melhor solução para a televisão se as coisas ficassem divididas, as câmeras num plano mais aberto acabariam mostrando uma mancha marrom e caso se aproximassem dariam apenas detalhes. Parece que a idéia era essa mesmo, fingir que havia comunicação, entretanto o MDB começou a dominar as apurações e ocupar cadeiras de tal forma que de qualquer posição, as câmeras mostravam uma mancha vermelha. A direção proibiu o uso das maquetes. Passamos a usar gráficos de barras verticais. Como a barra vermelha que representava o MDB ficasse a cada instante mais alta, também essa forma de comparação foi proibida. No Rio de Janeiro, Leonel Brizola avançava nas apurações de todos os órgãos de imprensa, menos na Globo, onde perdia para outros candidatos mais palatáveis a casa, como Miro Teixeira. Quando a coisa começou a passar para as raias do absurdo foi inventado um tal de "diferencial delta da Proconsult", que explicou porque os computadores da Globo davam resultados errados. Explicou, mas não convenceu. Em 1982 houve uma clara tentativa de mudar a realidade, prática que era bem conhecida dos coronéis do interior do Brasil. A indignação dos jornalistas que trabalhavam na apuração mostrou de forma clara que a patranha havia sido arquitetada pelos donos. Do poder e da Rede Globo. Felizmente prevaleceu o bom senso, Brizola levou no Rio, o MDB avançou e o país entrou na reta final para retornar à democracia plena, o que aconteceria em três anos. A democracia, apesar das falhas é o melhor regime que há, melhor do que qualquer ditadura. O leitor poderá estranhar que pouco tenha sido escrito sobre os bastidores políticos de Ubatuba, razão de ser da coluna. É que na realidade, nada aconteceu, fora os boatos, estes a cada dia mais mirabolantes. Se a criatividade fosse usada para fins construtivos...
Nota do Editor: Sidney Borges é jornalista e trabalhou na Rede Globo, Rede Record, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo (Suplemento Marinha Mercante) Revista Voar, Revista Ícaro etc. Atualmente colabora com: O Guaruçá, Correio do Litoral, Observatório da Imprensa e Caros Amigos (sites); Lojas Murray, Sidney Borges e Ubatuba Víbora (blogs).
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