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Um dos mais célebres estudos clássicos que podem ser caracterizados como um estudo sociológico sobre o fenômeno político é a obra DA DEMOCRACIA NA AMÉRICA de Alexis de Tocqueville, obra a qual o mesmo publicou logo após uma de suas visitas aos USA no século XIX. Neste livro Tocqueville aponta as inúmeras características singulares desta nação que, naquela centúria, era uma jovem nação. Dentre suas inúmeras peculiaridades, a que mais chama a atenção deste leitor foi o capítulo que trata da grande capacidade de associação que havia entre os estadunidenses. Falava-nos ele que o povo desta terra tinha associação para tudo, que toda e qualquer ação que eles fossem desenvolver como a construção de uma ponte, organização do ensino nas escolas, moralidade pública, em fim, não era do hábito destes procurarem um caudilho para que lhes resolvesse os seus problemas, mas sim, resolvê-los por conta própria. E ainda nos aponta que essas associações civis são a base para o desenvolvimento de um regime democrático sadio. Todavia, me pergunto no ermo de minha morada: e se Tocqueville tivesse visitado a nossa Terra Brasilis na décima nona centúria da era Cristã, como seria o título de sua obra? Aliás, como seria o capítulo que trata das associações civis (livro II, cap. 26) sobre nós? Com toda certeza seria deveras curioso. Para início do "causo", no século XIX como até os dias de hoje, nós temos uma grande facilidade para não nos associarmos. Quando chega o final do expediente de nossas obrigações, nosso corpo parece ser tomado por uma necessidade irascível de isolamento do corpo social. Somos inclusive incapazes muitas vezes de agirmos em socorro de problemas que nos afetam diretamente, ficando a espera de que alguém faça por nós quando não, empurramos pra frente. Com a barriga, é claro, para não sujarmos nossas mãos pseudo-aristocráticas. Exemplo do que afirmamos é-nos relatado por um cidadão guarapuavano, onde dizia-me que certa vez um cão havia sido atropelado na frente de uma moradora de sua rua e ele, mesmo tendo sua residência distante do ocorrido, contactou o serviço público para efetuar a limpeza. Neste ato, a sua empregada lhe perguntou o por que de ele ter feito isso? E ele lhe disse: "já fazem dois dias que esse cachorro está lá. Daqui a pouco são bem capaz de eles jogarem na frente de minha casa, por que sabem que eu consumirei com a carcaça". Visto que o defunto canino já havia sido deslocado para frente, mas, continuava no meio da rua. Não se reuniram para retirar o fétido corpo, porém, toda tarde lá estão elas a tricotarem sobre as futilidades de suas vidas anódinas. Um exemplo simplório, mas que denuncia a nossa peculiaridade civil. Não chamamos para nós nossa responsabilidade frente a comunidade em que vivemos, mas sim, preferimos delegá-la a um populista sem a menor virtude para que "resolva" todos os problemas possíveis e até mesmo imaginários. E, se não o fizer (o que é bem provável), para que sirva de bode-expiatório para a nossa iniqüidade congênita.
Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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