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Hoje tem marmelada? Tem sim senhor, e como tem! Os palhaços, digo, candidatos já foram acertados, agora só falta iniciarem o espetáculo para assim tentarem agradar ao público eleitoreiro que, em parte acredita no trololó dos referidos senhores e, de outro lado, se divertem com as suas macaquices nos palanques e nas ruas de nossas cidades. Tais palavras parecem serem um tanto agressivas e mesmo proferidas de maneira gratuita, mas não são assim, gratuitas, e muito menos fogem a uma boa reflexão digna de teorização. A princípio, muitos cidadãos brasileiros têm o costume sarcástico, fruto de sua indignação, de chamar o seu título de eleitor de certidão ou atestado de palhaço. Ledo engano. Os palhaços são essa corja de incompetentes que, na maioria dos casos, não prestaram para nenhum ofício, aí se candidatam para ocupar uma cadeira de uma câmara de vereadores. Graças ao Bom Javé há raríssimas exceções. São raras e em extinção, mas ainda existem. Mas o que nessa história toda é realmente interessante é a espetacularização que se dá de algo tão sério como um pleito eleitoral. O pensador francês Guy Debord já na década de 60 nos advertia desse traço doloso da sociedade moderna, onde o espetáculo não apenas faria parte da vida social como seria a vida social, a alma da sociedade. E, quando nos defrontamos com um momento como esse que, por ironia, é chamado de "festa da democracia", nossa alma se vê invadida de uma profunda inquietação. Tal é fruto da contradição que há entre ambas: festa e democracia. O júbilo por algo é deveras salutar como, por exemplo, quando percebemos que algo em que confiávamos deu certo, quando atingimos as metas que nós planejamos em atingir como passar em um vestibular, aumentar os rendimentos de nosso negócio ou mesmo abri-lo etc. Todavia, como podemos comemorar algo que nem ao certo sabemos se dará certo. Aliás, o tempo do pleito é justamente para refletirmos as propostas daqueles que se candidatam a administrar o nosso patrimônio, o patrimônio público e não assistir um espetáculo de mau gosto com direito a toda e qualquer forma de sofisma e baixeza. Por voltarmos muito nossa vista para a imagem produzida neste entrevero, acabamos elegendo uma marca, um nome, mas nunca uma plataforma que esteja em consonância com nossas idéias. E como bem nos fala Roger-Gérard Schwartzenberg, essa gentinha procura sempre compor um personagem que atraia a atenção e impressione a imaginação. Chegam ser tão patéticos que fica difícil de percebermos o tamanho da idiotia. Não usam seus nomes, mas apelidos, atribuem a si próprios características apolíneas, ou então, simulam conspirações contra sua pessoa tamanha a "grandeza" de sua "personalidade". E de mais a mais, quem fiscaliza os trabalhos realizados por esses biltres? Quantas vezes esses infames fizeram uma prestação de contas pública de seus (des)serviços prestados? Bem, provavelmente também não daria certo, pois esses fariam um show para tornar a coisa mais atraente do mesmo modo que os vereadores de um modo geral se entregam as sutilezas da baixaria para parecer que estão trabalhando e representando bem os bobos, quer dizer, "povo", nas egrégias Casas de Leis! E quer saber de uma coisa, vão a esses espetáculos do ridículo de nós. Vamos todos "prestigiar" a ignomínia da sociedade moderna, uma civilização que está desvendando as profundidades do universo e que continua até no século XXI imersa na obscuridade das fantasias e macaquices que vagueiam em torno do poder e se divirtam com o que há de pior na sociedade.
Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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