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Opinião
24/07/2004 - 12h10
As faces de Brahman
Márcio Ramos
 

Brahman, substantivo neutro, significa o Absoluto, o cosmos, o princípio transcendente e imanente, útero de todas as coisas. Brahman é um dos conceitos da tradição indiana que escapa a qualquer definição clara. Ainda que a literatura sânscrita esteja cheia de experiências e tentativas para descrever o indescritível. Em última instância o princípio de todas as coisas é o Um (tad ekam, RV X.129.2); isso implica que ele é o supremo (raiz brh-), divinamente sagrado, o poder secreto, a palavra sagrada (Veda) e a sabedoria, e tem sido caracterizado como, Ser (sat), Consciência (chit) e Felicidade Plena (ananda). A sua natureza é permanente, estável, imortal, imutável, inativa e ainda contém todos os poderes inerentes a todos os seres e aspectos da natureza. É o centro de todas as coisas e ainda tudo penetra e envolve.

Brahman é o ser e o não-ser, o que tudo preenche e o vácuo, o vazio, é a totalidade (sarvam) e não há conceito que se faça dele que o exauri. Excetuando-se os conceitos metafísicos que se faça de Brahman, brahman com letra minúscula agora tem seu lugar na arte, na experiência estética e como um símbolo de centralidade e vastidão no conceito de espaço, bem como a fonte do som e conseqüentemente da música (nadabrahman).

As sutilezas da linguagem

É importante fazer a seguinte distinção da palavra brahman. Quando a primeira sílaba for a tônica (bráhman), a palavra é neutra e significa Prece, ou a palavra Revelada/Sagrada ou o Absoluto. Quando a tônica for na segunda sílaba (brahmán), é masculina e significa o sacerdote ou o deus Brahma.

A etimologia da palavra brahman tem sido usada em uma vasta literatura sânscrita. Alguns autores (L. Renou) entendem que esta palavra vem da raiz que significa "falar por enigmas" devido à associação desta palavra com enigma, charada e contestação verbal apresentadas nos Vedas. Outros autores (P. Thieme, M, Mayrhofer), entendem esta palavra como "formulação (da verdade), forma". Deixando as dificuldades lingüísticas de lado, tal como a palavra Brahman que quer dizer "sem nenhuma forma" já em alguns Upanishads. A etimologia mais provável para esta palavra é aquela aceita pelos estudiosos indianos como J. Gonga e outros que deriva da raiz brh-, "crescer, tornar-se forte ou grande, crescente ou progressivo", ou como Gonda diz, "para ser perfeito", com o sufixo man, relacionado com brhant, "grande". O significado então poderia ser "o supremo, o que detem o poder, aquele que faz crescer". Esta derivação ocorre freqüentemente nos Vedas com Brhaspati.

Qualquer que seja a raiz e a origem indo-européia da palavra ela é usada em muitos sentidos nos Vedas e relacionada na esfera da palavra sagrada (vac), do sacrifício (yajña), e inspirou hinos bem como muitos outros aspectos da palavra sagrada (mantra, veda, akhyana, brahmodya). Tardiamente alguns estudiosos do Ocidente vão traduzir esta palavra como "mágica’ ou o "poder mágico", baseados numa visão antiquada da história das religiões julgaram o fenômeno erradamente. Ainda que nós não podemos aceitar as conotações pejorativas de "mágico", esta percepção pode ser aceita como sendo "uma palavra ou uma ação carregada com o mistério do mais profundo poder". Compare a explicação de Geldener de brahman: "Isto significa o mais profundo poder e extática via de obter o poder de Soma... o misterioso poder que inspira poetas e fazem deles visionários, (cf. Nir. II.11) o qual ele transfere para o deus... e geralmente todas as coisas que levam a vitória e ao encantamento, deslumbramento, um efeito mágico" do mais alto poder, especialmente da palavra mágica.

Os diferentes aspectos do significado desta palavra se tornará claro com as referencias textuais que vamos apresentar. Gonda fala da "impossibilidade da reconstrução do processo do desenvolvimento semântico" (1950, p.39). O problema esta em construir uma ponte entre o vácuo do significado de "fórmula sagrada", e a "absoluta realidade que tudo penetra". (Heesterman. Pp 295f).

Vamos considerar uma explicação etimológica tradicional como exemplo. O Atharvasira Upanisad diz:

Por que é chamado o Supremo Brahman? Porque ele é o maior dos maiores, a suprema meta, o grande qual a potência do grande poder, isto é chamado o Supremo Brahman. (Atharvasira Upa. 4).

O comentário do Visnusahasranama atribuído a Sankara nos fornece algumas explicações sobre brahman: "Brahman significa penitência, veda; Brahmanas bem versados nas escrituras e sabedoria" (v. 84 no. 661), e: "Brahman, realmente - Ele é brahman, caracterizado por não ser etc., como Ele é grande e tudo penetra e difunde" (v. 84 no. 664).


Aprofundando o significado

É praticamente impossível tratar Brahman como um conceito unitário, fazendo a abstração de um desenvolvimento semântico. Esta claro que o Brahman védico se relaciona com o processo criativo, diferentemente da contraparte Vedantica que o isola de toda ação. - Qualquer que seja os diferentes significados de brahman, esta palavra faz parte do processo criativo e do poder inerente da Palavra, do Verbo (vac), de fato isto contribuiu para traduções enganosas como "mágica". Brahman é um mistério, um enigma, um misterioso poder que é inerente e concede o poder a palavra e ao ritual. Este poder dinâmico não deve ser esquecido quando este conceito é usado nas artes, nas escolas teísticas, e é claro na filosofia da linguagem e ainda nos sistemas filosóficos.

Um outro ponto importante é a proeminência desta palavra ainda nos Brahmanas, e o desenvolvimento do conceito nas Upanisads e a influência na filosofia Vedantica. Assim o conceito é gradualmente obscurecido em associações concretas, as conexões cósmicas e a identificação com varias outras realidades, um tornar-se mais e mais abstrato, que tudo penetra e difunde, o princípio Supremo transcendente. Ainda temos as três características de brahman vedantico que é o ser, consciência e felicidade plena (sat - cit - ananda), este é o puro Ser que domina este entendimento. A neutralidade gramatical de Brahman contribuiu para que este não tenha sido personificado, e tem resistido a uma mitologização a imagens feitas conforme tendências da Índia Antiga e Medieval. Isto tem retido sua impessoalidade ou metapersonalidade natural e imanente fluidez, e foi personificado apenas no deus da criação Brahma, que por sinal, não é a única importante na história religiosa da Índia.

É de fundamental importância a natureza dual de brahman: forma (murta) e sem forma (amurta), com som (sabda) e sem som (asabda), as quais as Upanisads tem expressado e vai ter um grande impacto nas formas artísticas da Índia. Esta realidade dual também implica tempo (kala) e o não tempo (akala), com atributos (saguna) ou livre de todos os atributos (nirguna).

Dependendo das varias conexões e identificações de níveis de rituais, cosmos, e a mais alta consciência, brahman é também identificado com as divisões em três (e.g. triloka ou as três vocalizações criativas bhur, bhuvar, svar), em quatro, (três estados da consciência e quarto estado transcendente que é o turya), em cinco, (os cinco brahmans sendo cinco mantras cf. Shivaita). Brahman é identificado ou imanente a todos estes estados e permanecendo transcendente a todos eles.

Todos estes significados implicam em palavras compostas com brahman como se segue: supremo, transcendente (e.g. brahmaloka, brahmanirvana); centralidade (e.g. brahmasthana, brahmabindu, significando não somente um lugar estático central, mas também uma dinâmica uma onipresença); esplendor divino (e.g. brahmavarcas); onipenetrante (e.g. brahmachacra, brahmanda); a mais profunda essencial espiritual (e.g. brahmapura, brahmarandra); salvação ou meta da liberação (e.g. brahmavidya, brahmananda), e muitos outros.

Vamos sintetizar algumas dos principais significados de Brahman nas palavras de Maryla Falk: "Conseqüentemente brahman (sat-satyam) aparece nas relações cosmofisicas com vários significados: (a) O Ser transcendente universal, anterior a qualquer realidade concreta; (b) como a causa dos fatores de diferenciação; (c) como a mais profunda essência dos seres determinando sua existência individual; (d) como a essência dinâmica e soteriológica do conhecimento, reduzindo a diferenciação em uma unidade original, libertando o individuo dos laços da ignorância e do vir a ser" (Nama-rupa and Dharma-rupa, p.27).

Como conceito da última realidade brahman às vezes é sinônimo de atman ou purusa com os quais tem sido freqüentemente identificado.

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