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Conta-nos os anais da História que passado algum tempo da subida de Tibério ao trono do Império Romano, esse instituiu o crime de lesa-majestade. Todo aquele que o referido governante julgasse que estivesse a insultá-lo de alguma forma seria sumariamente condenado. Desse disparate, surgiram as condenações mais estapafúrdias que já emanaram da pluma imperial justificando-se através da mais indecorosa suspeita. Naqueles idos era o poder concentrado nas mãos dos Césares e esses podiam inclusive arrogar a si mesmos a exigência de que os povos sob a batuta de Roma se curvassem diante de sua imagem como se este fosse um deus vivo. De maneira similar ao despotismo imperial de Roma, temos hoje uma espécie de despotismo republicano velado nestas terras de botocudos. Não estou a me referir o déspota maior, no caso, aquele que preside o manicômio nacional, mas sim, dos milhares de tiranetes que governam os inúmeros municípios desta federação. As passagens que poderíamos descrever nesta missiva sobre esses césares modernos não seriam poucas e não deixariam nem um pouco a desejar para os tiranos que os antecederam. Até mesmo Tibério, quem sabe, ficaria para trás em alguns quesitos. Mas o que isso tem haver com o peixe estragado que está sendo ofertado mais uma vez para nós nesse 2004? O problema é que ele é mostrado como salmão. Mais uma vez, como em uma redenção messiânica, todo mundo fica bonzinho da noite para o dia. Ninguém perseguiu ninguém, ninguém afanou nada que fosse parte integrante do erário público, enfim, esses elementos, pela forma como se apresentam não deveriam indicar os seus nomes para ocuparem ou reocuparem cargos do poder público, mas sim, para o Papa canonizá-los como santos, do pau oco, é claro. E neste momento de efusiva confusão que é um pleito eleitoreiro, lembremos dos ditos e dos não compridos, dos sumiços, dos oportunismos que batem à soleira da cidadania de meia sola que abunda por essas paragens. Lembremos que quem está a disputar os cargos são eles e que a nós, cidadãos, cabe-nos o dever de interrogá-los sobre suas "idéias" e "projetos" para o município. Sigamos o conselho dado por François Maria Arouet (Voltaire), que dizia com seu ímpeto panfletário para que "não permitamos que os possuidores de inteligência sejam dominados pelos que não têm - e a geração futura nos deverá a razão e a liberdade". E, como sabemos que o caro leitor é uma pessoa lúcida e sapiente, não permitirá que biltres os tratem como massa ignara enrolando-os com qualquer trololó. Ou vai?
Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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