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Opinião
27/07/2004 - 14h14
Democracia e televisão
Gilberto Dupas
 

Deve-nos causar muita preocupação - enquanto cidadãos responsáveis e educadores - toda vez que uma pesquisa nos recorda a quantidade de tempo que nossos contemporâneos dedicam à TV. Basta assistir, entre enxurradas de propaganda, a uma tarde de domingo ou um horário "nobre" em nossos canais, incluindo os pagos. O fato é que, embora a televisão seja uma concessão pública e um instrumento vital para o debate de valores e definição de condutas, ela se transformou em todo mundo num puro negócio.

A crise da TV Cultura de São Paulo, o último canal brasileiro a tentar oferecer conteúdo criativo, é um bom exemplo de como a sociedade civil e as autoridades públicas abandonaram suas responsabilidades e "lavaram suas mãos".

Infelizmente, esse fenômeno se insere na nova lógica global. São centenas de milhões de cidadãos, por todo o mundo, vendo imagens que foram cuidadosamente construídas para atender a objetivos privados das emissoras e de seus anunciantes: elevar índices de audiência e o faturamento dos seus anúncios. A Inglaterra era o exemplo de uma rede pública de alto padrão. Lá se gastam 25 horas em média por semana vendo TV, número semelhante ao de muitos países, inclusive o Brasil. Por aqui, as novelas são líderes de audiência e a inserção de propaganda dentro do enredo condiciona comportamentos e perfis dos seus personagens, transformando-os em vendedores subliminares de refrigerante e sabonete. Diz Jay Blumler que "o processo moderno de publicidade tem a força quase irresistível de um ímã que obriga os que penetram em seu campo a adequar-se à sua atração", moldando não só a política partidária, como a maneira como todos pensam e vivem.

Para Colin Leys, professor da Queen’s University (Canadá) e autor de Market - driven politics - já traduzido no Brasil -, a BBC fornecia gratuitamente noticiários abrangentes, competentes e imparciais e vários gêneros de programas de alta qualidade; como reciprocidade desse bom uso da concessão pública, o Tesouro lhe repassava uma pequena taxa de licenciamento paga por todos os proprietários de televisores. Com Margaret Thatcher esse processo chegou ao fim; a televisão também foi considerada "área industrial da qual se pode extrair lucros num longo período". A Independent Broadcasting Authority ainda tentou regular o volume de anúncios que podiam ser exibidos por hora e por dia e tentava garantir que os anunciantes não tivessem excessiva influência sobre o conteúdo da programação, trabalho facilitado por um ethos de serviço público fortemente internalizado durante anos pelos profissionais do setor, em sua maioria treinados na antiga BBC.

Mas os dias gloriosos da televisão britânica, enquanto fórum fundamental para as "conversas formadoras" da sociedade britânica, acabaram. A BBC foi forçada a terceirizar e perdeu um terço de sua equipe. Enquanto a remuneração das grandes "estrelas", apresentadores e animadores de auditório subia de forma radical, os demais salários caíram violentamente. Leys lembra que uma comissão criada por Thatcher e liderada por Alan Peacock, famoso economista neoliberal, concluiu em 1986 que "a rádio e TV britânica deveria encaminhar-se para um sistema sofisticado de mercado com base na soberania do consumidor" - em bom português, soberania do anunciante e da empresa proprietária da concessão.

A digitalização dos sistemas fez o resto do estrago, pois exigiu enormes investimentos que só o setor privado estava pronto a fazer. A BBC passou a ter de se dedicar crescentemente a esportes, filmes e até soft-porn, para competir com as empresas privadas. O surgimento de empresas de comunicação gigantescas liquidou de vez com a cultura e o debate de opinião nesse setor. A racionalização é de que o proprietário de um canal de TV sempre estará disposto a oferecer o que o telespectador quer e, portanto, garantirá a livre escolha e a democracia. Lembro-me da RAI italiana e sua bela programação pública antes do flagelo da era Berlusconi. Uma mesa-redonda semanal escolhia temas de relevância social para diálogo aberto de alto nível com uma hora e meia de duração no horário nobre, sem interrupções. Assisti ao debate sobre a suspeita de contaminação por hormônio de uma marca famosa de "papinha" de nenê, envolvendo todos os interessados com liberdade e equilíbrio: a mãe de uma criança supostamente atingida, um cientista e um pediatra importantes, o fabricante da "papinha", um promotor público, um pecuarista, um filósofo especialista em ética e um competentíssimo mediador. Tudo isso acabou.

Na Inglaterra os seriados já são dois terços do que se oferece no horário nobre - com predomínio de temas de detetives e séries policiais - e o tempo para novelas se multiplicou por cinco em duas décadas. A preferência passou para temas "reconfortantes" ou finais "felizes". Os neoliberais defendem-se dizendo que foi a opinião pública que mudou. E que a TV só fez acompanhá-la, em sintonia com o "novo" consumidor, que agora preferiria negócios à política e programas de auditório a Shakespeare. Afinal, como diz Leys, "a idéia de um projeto coletivo para mudar a sociedade foi declarada desnecessária; portanto, por que alguém assistiria a programas políticos?" É claro que os próprios políticos também ajudaram, travestindo-se em marionetes pautadas por seus marqueteiros. A agenda humanista desapareceu. Um produtor inglês lembra que antes "havia a suposição de que estávamos do lado dos pobres, dos inferiorizados e dos sem-voz (...). Hoje há a sensação de que os telespectadores não estão interessados (...) em gente pobre, em fracassos". Prevalece apenas a tirania do "ibope".

Em suma, a prestação de serviços ao público virou paternalismo antiquado e fornecer qualidade a quem paga impostos está fora de moda. Rupert Murdoch, um dos reis da TV mundial, matou a charada: chega de dar ao público o que ele deveria ver; "interesse público é oferecer ao público o que lhe interessa". As forças de mercado não querem uma televisão prestadora de serviços, querem-na como lanchonetes de fast-food. Na TV industrializada os espectadores são ensinados a aceitar um produto barato e padronizado, sem nenhuma escolha, a não ser entre qualidades ruins. Basta andar pelo mundo, ligar as TVs e observar os programas. À exceção do idioma, são todos praticamente iguais, assim como o são hoje os hotéis e os aeroportos. A grande corporação privada e o lucro venceram o espaço público. A idéia da televisão como meio de comunicação e debate da esfera pública, fórum para as "principais conversas formadoras da sociedade", parece coisa do passado.

Mas o grande problema é que, para sobreviver, a verdadeira democracia continua precisando desse espaço mais do que nunca.


Nota do Editor: Gilberto Dupas é coordenador-geral do Grupo de Conjuntura Internacional da USP, presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais e autor, entre vários livros, de "Tensões Contemporâneas entre o Público e o Privado" (Paz e Terra).

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