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Medicina e Saúde
02/08/2004 - 09h04
Mãe é uma droga...
 
 

Estudos demonstram que a visão do rosto da mãe produz no cérebro do bebê endorfinas, substâncias responsáveis pelas sensações agradáveis da interação social e dos relacionamentos afetivos. Psiquiatra defende maior período de licença-maternidade, o que seria compensado economicamente no futuro com mais indivíduos felizes e ajustados.

Durante muitos anos, a mãe foi tida como a maior culpada pelos problemas apresentados pelos filhos. Era a chamada "mãe esquizofrenogênica", "inimigo público número 1 da saúde psicológica dos rebentos", segundo a literatura "psi". No cinema, a melhor representação dessa mãe "neurotizante" foi dada por Woody Allen no filme "Édipo Arrasado". Porém, a ciência tem uma notícia boa para as mamães, que vão continuar sendo vistas como uma "droga". Só que uma droga do bem.

Estudos sobre a neurobiologia e a psicobiologia da relação mãe-bebê indicam que as interações por meio de olhares mútuos representam a forma mais intensa e benéfica de comunicação interpessoal. A visão do rosto da mãe desencadeia altos níveis de opiógenos endógenos no cérebro infantil em desenvolvimento. As endorfinas são bioquimicamente responsáveis pelas sensações agradáveis da interação social e relacionamentos afetivos, já que agem diretamente nos centros de recompensa sub-corticais dos cérebros infantis.

Outras pesquisas feitas com crianças que sofreram maus tratos ou foram abandonadas mostram que a mãe não só age como um modulador do estado afetivo da criança, mas também como reguladora da produção de neurohormônios que influenciam a ativação do sistema de ação dos genes, programando o crescimento estrutural de regiões cerebrais essenciais para o futuro desenvolvimento sócio-emocional da criança.

Em poucas palavras: mãe estimula a produção de endorfina e, com isso, ajuda a organizar o "self" (personalidade) dos filhos. Segundo Vera Lemgruber, presidente da Aperj - Associação Psiquiátrica do Estado do Rio de Janeiro, várias medidas, no âmbito político-econômico, poderiam ser tomadas para potencializar os benefícios individuais e sociais dessa relação. "Os governos poderiam, por exemplo, propiciar condições para maiores e melhores períodos de licença-maternidade. A longo prazo, os custos seriam amplamente compensados com o aumento do número de cidadãos mais felizes e socialmente ajustados", defende.

"Cada indivíduo nasce com uma carga genética, isto é, predisposições, tendências ou vulnerabilidades, mas a resultante final, o chamado fenótipo, o comportamento da pessoa na fase adulta, depende da influência exercida pelas inúmeras experiências de vida, desde os primeiros meses e ao longo da vida do indivíduo. Uma relação plena e satisfatória com a mãe é fundamental para a saúde psicológica do bebê e do futuro adulto", diz Vera Lemgruber, que, em agosto, falará sobre o assunto no Simpósio "Psicoterapia e Neurociência", durante a Jornada da Aperj.

Simpósio "Psicoterapia e Neurociência"
26 a 28 de agosto de 2004
Hotel Glória - Rio de Janeiro - RJ

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