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O ser humano mediano adora resumir a ópera da vida em um simplório joguinho de palavras decoradas, de cacoetes mentais que acabam por dominar todos os diálogos em que o referido sujeito acaba se envolvendo. E, como a percepção que temos da realidade é forjada pela qualidade das palavras que usamos para falar sobre o mundo e para nos informar sobre ele, é de se esperar que a massa encefálica da turba ignara esteja a beira de um colapso epistemológico frente a esse angu encaroçado na forma de linguagem viciada que forja a realidade brasileira. Quando nos referimos a qualidade da linguagem usada, não estamos a nos referir quanto ao refinamento do linguajar utilizado pelos indivíduos, mas sim, pura e simplesmente quanto a compreensão do significado e do sentido que essas palavras tem e que tanto são utilizadas por eles. E esse tipo de postura não se é encontrado tanto no meio das pessoas simples, sem uma "educação" formal junto a uma instituição de ensino. Pelo contrário, o antro onde vemos isso com grande freqüência é justamente no universo acadêmico e com relevante fartura, diga-se de passagem. Male mal o elemento folheou uma obra, ou meramente ouviu o seu prelado professor falar sobre as idéias de fulano ou sobre a obra de beltrano que de pronto ele se converte àquela "fé" intelectual passando a ganhar ares de inquestionabilidade. Exemplo desse fenômeno foi o diálogo que uma vez tive com uma professora que se auto-afirmava marxista. Diante do dito, não tive como não argumentar com ela que a obra do referido filósofo havia sido refutada por intelectuais como Raymond Aron, Eric Voegelin, J. O. de Meira Penna, Eugene Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises e tutti quanti. E lhe expliquei alguns dos argumentos dos mesmos quanto aos escritos de seu guru e quanto sugeri que ela lê-se um livro desses homens ela, laconicamente, me respondeu: "Não, se eles criticam Marx eu não quero saber". Postura "crítica" essa não é mesmo? E assim portam-se muitos críticos nestas terras ensolaradas. Critica a tudo que está a sua volta, menos a própria cola. Essa impostura fica mais evidente em todo o corpo da sociedade quanto chega-se a época dos "milagres", das campanhas eleitoreiras onde todos os que são partidários de "X" ou de "Y" ficam com a língua afiadíssima com relação ao seu adversário, mas cego, surdo e louco com relação a toda farpa que seja proferida contra o seu "queridinho". Não estou a afirmar que você não deve lamber as botas dos candidatos aos quais nutre um certo "afeto". Porém, quando for tecer fel aos seus adversários procure ponderar sobre essa sua estapafúrdia ponderação acrítica, consulte a voz grave de sua consciência. Ou então continue com esse jeitinho patético de ser "cidadão à brasileira".
Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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