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Um dos notáveis da cultura brasileira é Millor Fernandes. Desenhista, jornalista, teatrólogo, tradutor, chargista, pintor, poeta, filósofo, poderíamos escrever muito mais sobre as habilidades desse notável criador, uma espécie de Leonardo da Vinci da área das artes. Sim porque Leonardo fez tudo o que Millor faz, mas também era cientista, inventava coisas, era engenheiro, projetava máquinas de guerra e era visionário, antevia o futuro. O que há de comum entre esses dois homens, além do talento? Poucos sabem, mas ambos descobriram o conhecimento sozinhos, sem freqüentar bancos escolares. Foram autodidatas, Millor continua sendo. Uma vez assisti a uma entrevista em que ele abordou o assunto. Vejam bem, ele faz traduções consideradas muito boas, de textos ingleses. Ele estudou inglês sozinho, o que convenhamos não é tarefa fácil. Na entrevista, perguntado se a escola fez falta, ele respondeu que apenas num quesito. O método. A escola ensina como abordar uma questão, como avaliar os dados disponíveis, separar o que interessa e depois caminhar em busca de soluções. Ele continuou dizendo que perdeu muito tempo descobrindo coisas que os alunos das escolas formais aprendem facilmente. Um homem que é símbolo de conhecimento, não tripudiou sobre a escola formal, antes lamentou não ter podido freqüentá-la. Em Ubatuba, pelo contrário, há um flagrante desrespeito pelo conhecimento formal e pela sabedoria. É o que normalmente acontece em terras de coronéis. Mandam os que têm dinheiro, sendo esse dinheiro produto de escambo na maioria das vezes. A tradução dessa mentalidade quase medieval é a ausência de uma mídia responsável, que primeiramente informe com isenção e depois cuide da formação dos cidadãos. Sem essa mídia, na verdade o quarto poder, a cidade continua vendo políticos tentando trocar votos por mercadorias básicas, é a mentalidade vigente, aceita e que tende a prevalecer. A tradição é passada oralmente, como acontecia antes de Gutenberg ter inventado a imprensa. A pouca mídia existente tem um lema: "servimos ao nosso amo" não tendo credibilidade junto aos formadores de opinião. O maior problema numa sociedade com essas características é dominar o imediatismo que permeia as cabeças dos coronéis, ou dos que pensam ser coronéis, mas são apenas mercadores. Acostumados a vender o boi e receber o dinheiro, eles não entendem ações que possam demorar em surtir efeitos. Não há interesse em planejar o futuro. Ontem, na Flórida, foi lançada uma sonda em direção ao planeta Mercúrio. Ela só vai mandar respostas no ano 2011. Isso seria impensável em Ubatuba. Aqui tudo é para agora. Aqui os políticos gastam fortunas para se eleger vereadores e depois receber salários que perfazem um décimo do que investiram na campanha. Sem outra fonte de renda além desses salários, aumentam o patrimônio em progressão geométrica. Observem se há compatibilidade entre proventos e bens dos nossos homens públicos. Com uma mídia atuante isso poderia ser menos danoso ao município, haveria indignação da população, haveria cobrança. A sociedade ubatubense não entendeu que não bastam paisagens bonitas, é preciso mais, é preciso servir bem aos que aqui vem buscar sossego e encontram desmandos, desmazelo, sujeira e falta de imaginação. Isso é o pior de tudo, Ubatuba não tem imaginação. Quem sabe se houver investimentos em educação isso um dia mude? O problema é que os que mandam na cidade não têm educação. Como poderiam investir no que desconhecem? Pensem bem antes de votar.
Nota do Editor: Sidney Borges é jornalista e trabalhou na Rede Globo, Rede Record, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo (Suplemento Marinha Mercante) Revista Voar, Revista Ícaro etc. Atualmente colabora com: O Guaruçá, Correio do Litoral, Observatório da Imprensa e Caros Amigos (sites); Lojas Murray, Sidney Borges e Ubatuba Víbora (blogs).
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