|
A decisão de trancar as portas daquele supermercado paraguaio em chamas e assim impedir que as pessoas saíssem sem pagar pelas mercadorias demonstra que há algo de muito podre em nossa civilização. Algo que a todos chamusca, contamina e mesmo assim nos leva a bancarmos os cegos, surdos, mudos e impotentes como forma única de impedir nossa eliminação e garantir nossa sobrevivência. Ao ler a notícia todos nos sentimos indignados. Solidários, estendemos nossa mão, aliviamos nossa consciência: os culpados serão buscados e continuaremos em nossas rotinas, certos de que a vida em sociedade já criou os mecanismos necessários para punir os transgressores. O que transforma o problema em algo podre é que este não é um ato isolado ou atitude insana e esporádica de algum "cucaracha" encravado num país de terceiro mundo. O cheiro fétido brota por todos lados, mas fingimos não sentir, porque particularmente somos bons cidadãos. Esse cheiro ruim incomoda quando atinge a dimensão de uma tragédia porque abala por alguns instantes nosso dia-a-dia. O problema não está no drama que nos choca. O problema é que a podridão está em ficarmos estarrecidos e ponto final. Choramos hoje, mas seguimos em frente, incapazes de compreender o que se passa ao nosso redor. Não temos coragem de perguntar como e por quê estamos gerando cada vez mais pessoas que funcionam a partir de uma lógica sem ética, a partir de uma lógica desumana. No caso, não importa de quem partiu a decisão. A verdade é que alguém não hesitou em priorizar o capital, o mercado e o sistema em detrimento da vida. Em vez de sentir compaixão e respeito ao ser humano, alguém julgou mais importante garantir o negócio. E isto acontece todos os dias em todos os cantos do mundo. Não há diferença entre a postura de quem transformou o templo de consumo numa câmara macabra e a do advogado espertinho que levou nove pessoas que não eram moradores do Palace 2 a receber as indenizações antes das verdadeiras vítimas. Não há diferença entre a lógica de um Sérgio Naya que sonega e constrói prédios que desabam e os burocratas que tentaram confiscar, em nome do Estado, o dinheiro a que têm direito essas mesmas vítimas. Não há diferença, já que estamos em período eleitoral, em prometer e não cumprir, ou o que é pior, em manipular e iludir para ganhar o poder - qualquer poder - custe o que custar, não importa quem vai ser ferido ou lesado. Diante dessas manchetes, poderia sublinhar os gestos solidários ou reforçar a crença de que a justiça tarda, mas não falha - algo respectivamente tocante e verdadeiro. Vemos isso e nos confortamos: somos bons, éticos e responsáveis. Nos orgulhamos por existir um grande movimento espalhando-se pelo mundo que clama por um desenvolvimento sustentável, por mais responsabilidade social e o resgate da ética na política e nos negócios. A questão é que o mínimo que podemos esperar de uma civilização é que as pessoas se respeitem, os negócios sejam éticos, a política honesta e que a justiça seja justa. Esse ar malcheiroso, que fingimos não sentir, ainda prevalece quando a intenção é a de lucrar a qualquer custo, a mesma intenção que mantém a indústria da guerra, do contrabando, do narcotráfico e do tráfico de influências. Ocorre que ainda que seres humanos sejam imperfeitos e o que chamamos de civilização por conseqüência também não seja lá essas coisas, ainda assim deveríamos colocar a ética em primeiro lugar. A lógica seria priorizar o humano e não o lucro que emana de todo poder. Se não enfrentarmos essa inversão de valores, estaremos ajudando a reproduzir o modelo olhos vendados, ouvidos tapados, lábios calados e mãos atadas. Esta farsa não pode seguir pautando nossas relações. A vida não pode continuar igual cada vez que alguém decide priorizar essa lógica nojenta que parte do mesmo "animus lucrandi" que causou a destruição das Torres Gêmeas - marco inicial deste novo século e que tanta surpresa causou! É preciso entender por que estamos apodrecendo as relações humanas e tentar evitar que esta conduta nos leve de ao fundo do poço. E lutar para que o "ânima solidário" prevaleça e não precisemos seguir na farsa daqueles que fingem que nada vêem, nada ouvem, nada falam, nada sentem, nada fazem. Nota do Editor: Jandira Feijó é jornalista.
|