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Segundo a tradição judaico-cristã todos nós temos o que é denominado como o "pecado original". Não seríamos assim criaturas angelicais, benévolas por natureza como quis crer Rousseau e como crêem os seus seguidores direta ou indiretamente. O que não significa também que devemos admitir que sejamos maus por natureza, mas que nossas escolhas determinaram o nosso por vir e que seremos aquilo que frutificar dos caminhos e descaminhos que escolheremos para os nossos passos. Os caminhos que nos são apresentados pela sociedade não são assim tão diversos como nós gostaríamos que fossem, mas, ainda o são. Todavia, como bem nos lembra o músico Osvaldo Monte Negro em sua música O CHATO, nós não teríamos apenas o pecado original, mas também e de maneira bem mais acentuada um ridículo original que vira e meche se revela em nossas atitudes mais corriqueiras de nossa papalva existência. Exemplo desse ridículo original manifesto foram o das pessoas que se candidataram a ocupar um cargo de legislador municipal e tiveram que se submeter a um teste para comprovarem que não eram analfabetos segundo critérios parvos o que, não desmentiria o seu analfabetismo funcional. Vejam bem: pessoas que se candidatavam a um cargo que exige basicamente que se aprecie, que se analise as leis do executivo municipal para assim poder fiscalizá-lo em seus atos. Para tal tarefa exigi-se que a priori esse elemento tenha no mínimo uma boa leitura e uma boa capacidade de interpretação, não é mesmo? Então, me pergunto o que passa pela cabeça destes cândidos ignaros que se apresentavam para tal função? Ao certo uma coisa só: fazer deste poder basilar para a manutenção da ordem democrática, um meio de se ganhar bem se fazer patavinha alguma. Não que o cargo não exija afazeres apreciáveis, mas como você vai cumprir com as prerrogativas que lhe serão atribuídas sendo que não se tem nem os pré-requisitos mínimos para tanto? Alias, prova maior deste ridículo original manifesto em nossa sociedade é justamente o critério de analfabeto que adotamos para avaliá-los e assim capacitá-los a candidatarem-se ao cargo. Se eles fossem capazes de responder perguntinhas simples aplicadas para crianças das séries iniciais seriam tidos como aptos a serem legisladores. Quer algo mais ridículo que isso? Para o ridículo geral da nação há sim! Quando comparamos esse critério parvo de "ser alfabetizado" e comparamos com a de um outro país, como o Japão, onde para ser considerado como tal você deve ser capaz de redigir uma redação e de ler e interpretar uma obra. Já parou para pensar o entrevero que iria causar nesse nosso país se tal critério fosse adotado? É bem provável que os vereadores de todo país seriam capazes de se mancomunarem, como o fizeram quanto a redução do número das suas cadeiras, para protestar contra essa "injustiça social", afirmando que tal atitude seria anti-democrática e que eles nesta condição ignara estariam em plena condição de representar o "povo", porque eles são como o "povo" e bla bla bla. Pobre povo brasileiro que de tempos em tempos tem que ver a palavra que os designa na boca sórdida de aproveitadores de toda e qualquer ocasião. Bem, coisas de nosso ridículo original que persiste em se fazer anunciar pelas nossas mal fadadas escolhas.
Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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