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Crônicas
23/08/2004 - 14h21
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Márcio Ramos
 

"Deixavam-me vagabundear pela biblioteca e eu assaltava a sabedoria humana. Foi ela quem me fez". Jean-Paul Sartre (As Palavras, pg. 36, Ed. Nova Fronteira)

Minha casa é a última da rua, por enquanto. Espero que continue assim, por um bom tempo. Só tenho vizinhos de um lado, em frente e nos fundos é só mato. Uma beleza! Não me sinto confortável rodeado de gente, prefiro as pessoas em sua individualidade, mais de um para mim, já são muitos. O convívio diário com as mesmas pessoas não me agrada, logo elas me aborrecem. Estou sempre precisando de novos contatos, novos estímulos, novas idéias. Estou sempre em ebulição, em processo criativo. Sou um nômade por natureza. Jamais iria correr o risco, por motivos financeiros, de passar o resto da vida atrás do mesmo balcão. Argh! Na mesma cidade. Argh! Fazendo sempre a mesma coisa... Argh! Há quem consiga, e sinceramente, admiro até onde pode chegar a natureza humana. Levando uma vida destas não há filosofia, arte, literatura. Ou existe? Bem se existe deve ser uma nhaca! Há não ser que...

Os livros! Sim, os livros! Foram os livros que me salvaram do desespero, do lugar comum, do cotidiano, da burrice do mundo adulto televisivo. Desde criança me entrego aos livros - e corro da televisão - fiz deles os meus melhores amigos, minha família, meu grupo escolar, minha galera. Sempre os livros. Nos livros me refugiava e me encontrava, me perdia e me deslumbrava, os livros ainda são as melhores companhias que a gente pode ter por tempo indefinido. A beleza da carne é fundamental, mas momentânea, está em processo contínuo de transformação, celulites, distúrbios hormonais, gordura localizada e sob o impacto constante da gravidade. O tempo das delícias da "boa" carne são limitados e passageiros. Picasso teve sete mulheres. Dalí teve somente Gala. Mas Gala tinha a altivez de Gala e a loucura transcendente de um clássico, sem Gala, certamente Dalí morreria louco em um manicômio.

Em casa tenho um templo. Um templo que está constantemente sendo aprimorado, um lugar sagrado por excelência. Ali, naquele templo, lado a lado, estão gregos e troianos, cristãos e mulçumanos, crentes e ateus, agnósticos, idealistas, filósofos, artistas, cientistas e poetas, trovadores, mercenários, genocídas, homens e mulheres que lutaram bravamente por um mundo melhor, viciados e marginais com suas obras maravilhosas, escrituras sagradas da China, Índia, Mesopotâmia, Egito, Grécia, Palestina, ensinamentos de Mestres brasileiros, judeus, árabes, alemães, nhambiquaras, aborígines da Austrália, alguns anônimos e outros bem conhecidos. É neste templo que eu passo a maior parte de meus dias e de minhas noites, desde a minha primeira infância. Ali me entrego com devoção e respeitosamente "converso", reflito e estendo as mãos para os céus, agradecendo a todos eles, por nos legarem tão vasto conhecimento. Os clássicos, e seus autores, eu os amo. O meu templo é a minha biblioteca. Na verdade, onde é que se tenha uma biblioteca, ali estará o meu templo, ali eu "rezo a minha cartilha".

A paz, a tranqüilidade, este quase êxtase que encontro na literatura. Os conflitos e as indagações profundas. A felicidade e a angústia cortante de novas "verdades", que vislumbro e sinto na carne e no espírito, e as certezas, que sempre e sempre, dão lugar a novas dúvidas, me fazem avançar e avançar. Avanço com prudência de nunca me deixar pensar pela cabeça dos outros, seja ele ou ela quem quer que seja. Nunca fui fraco o suficiente para praticar a idolatria. Leio de tudo desordenadamente e por associações de idéias mergulho fundo e alço vôos longínquos. Assim eu construo a minha felicidade e me pego cantando. A morte não pode me assustar e a solidão para mim é uma dádiva, das que eu mais prezo. Aprendi a ler os livros, que me ajudaram a ler melhor o mundo, eu mesmo e o outro.

É uma pena que o brasileiro leia tão pouco e mal. A educação em nosso País e o estímulo as manifestações culturais são muito deficientes. Os professores em geral - produtos de uma "educação" falida - são despreparados. Pior, não têm nem referência do que é estar bem preparado. As escolas e os centros de ensino superiores vão de mal a pior. E você jovem, jovem como eu, dos 8 aos 80 anos, se não puder cursar uma boa Universidade ou comprar livros novos, vá até a biblioteca de sua cidade, ou até o sebo mais próximo, e saboreie o que há de bom por lá.

Eu compro a maioria dos meus livros em sebos e quando não tenho dinheiro - quase sempre - vou até a biblioteca que é de graça. As Universidades públicas abrem vagas para pessoas que querem acompanhar algum curso inteiramente grátis. Este ano eu terminei mais uma pós-graduação na USP e não paguei nada. Também não ganhei diploma, mas quem precisa de diploma? O diploma diz que você fez o curso, e não que assimilou o conhecimento. Salve a Universidade pública!

Nas próximas eleições vote em quem estiver ao lado da cultura gratuita e para o povo! Queremos teatro, dança, artes plásticas, bibliotecas, livrarias, sebos, literatura, carnaval, circo, criatividade! Mas de boa qualidade, e um projeto decente que faça com que tudo isso prospere ao longo dos anos.

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